UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

Aires José ROVER, professor

http://infojur.ufsc.br/aires

 

 


LIVRO [fazer comentário]


O MACACO NU

 

Desmond Morris

 

 

 

CIRCULO DO LIVRO S.A.

Caixa postal 7413

Edição integral

Título do original: "The naked ape"

Copyright 1967 by Desmond Morris

Tradução de Hermano Neves

Licença editorial para o Círculo do Livro

por cortesia da Distribuidora Record

de Serviços de Imprensa S.A.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

AGRADECIMENTOS

 

 

Este livro destina-se ao público em geral, pelo que o texto não inclui referências bibliográficas. Estas teriam provocado fre­qüentes interrupções, que só se justificam em trabalhos mais técni­cos. Mas a sua preparação exigiu consulta de numerosos artigos e livros importantes, pelo que não estaria certo omitir tão precioso auxílio. No final do livro, o autor cita, em apêndice dividido por capítulos, as principais obras referentes a cada um deles. A seguir ao apêndice apresenta-se uma bibliografia mais pormenorizada.

O autor deseja ainda agradecer a muitos colegas e amigos que o ajudaram, direta ou indiretamente, através de debates, correspon­dência e de muitas outras formas. Entre eles, cita nomeadamente: Dr. Anthony Ambrose, David Attenborough, Dr. David Blest, Dr. N. G. Blurton-Jones, Dr. John Bowlby, Dra. Hilda Bruce, Dr. Richard Coss, Dr. Richard Davenport, Dr. Alisdair Fraser, Prof. J. H. Fremlin, Prof. Robin Fox, Baronesa Jane van Lawick-Goodall, Dr. Fae Hall, Prof. Sir Alister Hardy, Prof. Harry Harlow, Mary Haynes, Dr. Jan van Hooff, Sir Julian Huxley, Devra Kleiman, Dr. Paul Leyhausen, Dr. Lewis Lipsitt, Caroline Loizos, Prof. Konrad Lorenz, Dr. Malcolm Lyall-Watson, Dr. Gilbert Manley, Dr. Isaac Marks, Tom Maschler, Dr. L. Harrison Matthews, Ramona Morris, Dr. John Napier, Caroline Nicolson, Dr. Kenneth Oakley, Dr. Francês Reynolds, Dr. Vernon Reynolds, Hon. Miriam Rothschild, Claire Russell, Dr. W. M. S. Russell, Dr. George Schaller, Dr. John Sparks, Dr. Lionel Tiger, Prof. Niko Tinbergen, Ronald Webster, Dr. Wolfgang Wickler e Prof. John Yudkin.

O autor esclarece que a citação destas pessoas não implica que elas concordem necessariamente com as opiniões pessoais expressas no livro.


 

INTRODUÇÃO

 

Existem atualmente cento e noventa e três espécies de ma­cacos e símios. Cento e noventa e duas delas têm o corpo co­berto de pêlos. A única exceção é um símio pelado que a si próprio se cognominou Homo sapiens. Esta insólita e próspera espécie passa grande parte do tempo a examinar as suas mais elevadas motivações, enquanto se aplica diligentemente a igno­rar as motivações fundamentais. O bicho-homem orgulha-se de possuir o maior cérebro dentre todos os primatas, mas tenta esconder que tem igualmente o maior pênis, preferindo atri­buir erradamente tal honra ao poderoso gorila. Trata-se de um símio com enormes qualidades vocais, agudo sentido de explo­ração e grande tendência a procriar, e já é mais do que tempo de examinarmos o seu comportamento básico.

Sou zoólogo e o macaco pelado é um animal. É, portanto, caça ao alcance da minha pena e recuso-me evitá-lo mais tem­po, só porque algumas das suas normas de comportamento são bastante complexas e impressionantes. A minha justificativa é que, apesar de se ter tornado tão erudito, o Homo sapiens não deixou de ser um macaco pelado e, embora tenha adquirido motivações muito requintadas, não perdeu nenhuma das mais primitivas e comezinhas. Isso causa-lhe muitas vezes certo em­baraço, mas os velhos instintos não o largaram durante milhões de anos, enquanto os mais recentes não têm mais de alguns milhares de anos — e não resta a menor esperança de que ve­nha a desembaraçar-se da herança genética que o acompa­nhou durante toda a sua evolução. Na verdade, o Homo sapiens andaria muito menos preocupado, e sentir-se-ia muito mais satisfeito, se fosse capaz de aceitar esse fato. É talvez nesse sen­tido que um zoólogo pode ajudar.

Um dos fatos mais estranhos de todos os estudos anteriores sobre o macaco pelado é a forma sistemática como evitam fo­calizar o que é evidente. Os primeiros antropologistas apressa­ram-se a vasculhar os cantos mais escondidos do mundo, pre­tendendo decifrar as verdades fundamentais sobre a nossa na­tureza e dispersando-se pelas fontes culturais mais remotas, muitas vezes atípicas e falhadas, a ponto de se terem quase extinguido. Em seguida, regressam carregados de aterradoras informações sobre os hábitos de acasalamento mais bizarros, os sistemas de parentesco mais estranhos ou os costumes tribais mais fantásticos e usam esse material para compreender o comportamento da nossa espécie, como se ele fosse da mais transcendente importância. Sem dúvida que o trabalho desses investigadores é muitíssimo importante e valioso para mostrar o que pode acontecer quando a evolução cultural de um grupo de macacos pelados o empurra para um beco sem saída. Revela mesmo até que ponto o nosso comportamento se pode desviar do normal, sem no entanto redundar num completo fracasso social. Mas nada ficamos sabendo sobre o comportamento típico dos macacos pelados mais ou menos característicos. Isso apenas se pode conseguir examinando as normas do comporta­mento habitual dos membros mais vulgares, daqueles que fo­ram mais bem sucedidos e que correspondem aos principais tipos de cultura — as principais correntes que, no seu con­junto, representam a grande maioria. Do ponto de vista bio­lógico, essa é a única forma correta de abordar o problema. Os antropologistas da velha escola argumentariam que os seus grupos tribais tecnologicamente elementares estão mais pró­ximos do fulcro da questão do que os membros das civiliza­ções mais avançadas. Não concordo. Os grupos tribais sim­ples que ainda hoje existem não são primitivos, mas estupidificados. Há muitos milhares de anos que não existem verda­deiras tribos primitivas. O macaco pelado é essencialmente uma espécie exploradora, e toda a sociedade que não foi ca­paz de avançar constitui um fracasso e "seguiu um caminho errado". Por alguma razão se manteve atrasada, algo se opôs às tendências naturais da espécie para explorar e investigar o mundo que a rodeia. É muito possível que as características que os antigos antropologistas encontraram nessas tribos sejam exatamente os fatores que impediram o respectivo progresso. Daí o grande perigo de utilizar essas informações como base para um esquema geral do comportamento da nossa espécie.

Os psiquiatras e os psicanalistas, pelo contrário, não se afas­taram tanto, concentrando-se em estudos clínicos de exem­plares mais representativos. Infelizmente, uma grande parte do seu material inicial também não é adequada, embora não sofra dos mesmos pontos fracos que as informações antropológicas. Embora os indivíduos estudados pertencessem à maioria, eram, apesar de tudo> exemplares aberrantes ou falhados. Porque, se esses indivíduos fossem saudáveis, bem sucedidos, e portanto típicos, não teriam procurado tratar-se — nem contribuído para enriquecer as informações colhidas pelos psiquiatras. In­sisto mais uma vez que não pretendo depreciar o valor desse tipo de investigação, que nos proporcionou uma visão impor­tante sobre a maneira como as nossas normas de comporta­mento podem entrar em colapso. Simplesmente, parece-me insensato sobreestimar as primeiras descobertas antropológi­cas e psiquiátricas quando se procura discutir a natureza bio­lógica fundamental do conjunto da nossa espécie.

(Devo dizer que tanto a antropologia como a psiquiatria se estão transformando rapidamente. Muitos dos modernos inves­tigadores nesses domínios começam a reconhecer as limitações dos trabalhos iniciais e dedicam-se cada vez mais ao estudo de indivíduos típicos, saudáveis. Como disse recentemente um desses cientistas: "Pusemos o carro adiante dos bois. Agarramo-nos aos anormais e só agora começamos, um pouco tar­diamente, a interessar-nos pelos normais".)

A perspectiva que me proponho utilizar neste livro baseia-se em material recolhido de três fontes principais: 1) as infor­mações sobre o nosso passado desenterradas pelos paleontó­logos e baseadas no estudo dos fósseis e de outros vestígios dos nossos antepassados miais remotos; 2) as informações exis­tentes sobre o comportamento animal que foram estudadas na etologia comparada e se baseiam em observações pormenori­zadas obtidas numa grande variedade de espécies animais, es­pecialmente naquelas com que mais nos parecemos, os maçacos e símios; 3) a informação que se pode coligir através da observação direta e simples das formas de comportamento que são mais básicas e comuns entre os representantes mais bem sucedidos do próprio macaco pelado que correspondem aos principais tipos de cultura contemporânea.

Dada a vastidão do assunto, será necessária certa simplifi­cação. Vou tentar realizá-la, passando por cima dos pormenores da tecnologia e da terminologia e concentrando sobre­tudo a atenção nos aspectos da nossa vida que encontram fá­cil correspondência noutras espécies: atividades tais como ali­mentação, limpeza, sono, luta, acasalamento e assistência aos jovens. Como reage o macaco pelado em relação a esses pro­blemas fundamentais? Quais as diferenças e semelhanças entre essas reações e as dos outros macacos e símios? Que caracte­rísticas lhes são genuinamente específicas e em que medida elas se relacionam com a história da sua evolução, verdadeira­mente especial?

Ao encarar esses problemas, avalio bem quanto me arrisco a ofender certas pessoas. Muita gente não gosta de pensar que somos animais. E podem dizer que eu avilto a nossa espécie quando a descrevo em rudes termos animais. Posso apenas afirmar que não é essa a minha intenção. Outros ofender-se-ão pelo fato de um zoólogo se intrometer nos seus campos espe­cializados. Mas admito que essa perspectiva poderá ter grande valor e que, apesar de todos os defeitos, introduzirá novos (e de certa maneira inesperados) esclarecimentos sobre a natu­reza complexa da nossa extraordinária espécie.

 

 

 

Capítulo 1

 

 ORIGENS

 

Numa jaula de certo jardim zoológico lê-se o seguinte letreiro: ''Animal desconhecido da ciência". Dentro da jaula está um pequeno esquilo. Tem as patas negras e veio da Áfri­ca, continente onde nunca se tinham encontrado esquilos com patas negras. Não se sabe nada sobre tal esquilo. Nem sequer tem nome.

Esse animal constitui imediatamente um desafio aos zoólo­gos. De onde lhe veio essa característica desconhecida? Em que difere das outras trezentas e sessenta e seis espécies de esquilos que já foram descritas? De qualquer maneira, em de­terminada altura da evolução da família dos esquilos, os an­tepassados desse animal devem ter-se afastado dos restantes e estabelecido um ramo independente que se continuou a re­produzir. Que existiria no meio que os rodeava, para que se tenham podido isolar e constituir uma nova forma de vida? Esse novo tipo deve ter começado a diferenciar-se pouco a pouco, com um grupo de esquilos vivendo em determinado lugar, modificando-se ligeiramente e se adaptando melhor às condições locais. Nessa primeira fase, eram ainda capazes de cruzar com os parentes das redondezas. A nova forma man­teria ligeiras vantagens na sua região especial, mas não cons­tituiria mais que uma raça da espécie básica e poderia ter desaparecido em qualquer momento, reabsorvida pela linha­gem principal. Se os novos esquilos fossem se aperfeiçoando com o tempo, adaptando-se melhor ao seu ambiente particular, poderiam atingir um ponto em que seria mais vantajoso se isolarem, para não serem contaminados pelos vizinhos. Então, o respectivo comportamento social e sexual teria sofrido modificações especiais, tornando pouco provável, ou mesmo impossível, qualquer cruzamento com outras espécies de es­quilos. A princípio, poderiam ter sofrido modificações anatô­micas que lhes permitissem uma melhor utilização da comida local, mas, mais tarde, os próprios gestos e convites para acasalamento seriam também diferentes, de modo que só atrai­riam companheiros do novo tipo. Finalmente, a evolução teria originado uma nova espécie, separada e discreta, correspon­dendo a uma forma única de vida, a tricentésima sexagésima sétima espécie de esquilos.

Quando olhamos para o esquilo não identificado, encerra­do na jaula do jardim zoológico, podemos apenas conjeturar tais coisas. O único fato positivo são as marcas de pêlo — as suas patas negras — que nos indicam tratar-se de uma forma nova. Mas isso são apenas sintomas, tal como um grupo de borbulhas permite ao médico fazer o diagnóstico de um doen­te. Para compreender realmente a nova espécie, esses indícios servem apenas como ponto de partida de qualquer coisa que valerá a pena prosseguir. Podíamos tentar adivinhar a histó­ria do animal, o que seria pretensioso e perigoso. Em vez disso, vamos começar humildemente por lhe dar um nome simples e evidente: nós o chamaremos esquilo africano com patas ne­gras. Depois, devemos observar e registrar todos os aspectos do seu comportamento e da sua estrutura e avaliar em que di­fere dos outros esquilos ou a eles se assemelha. Assim, pode­remos ir coligindo, pouco a pouco, a sua história.

A nossa grande vantagem em estudarmos esses animais é não sermos esquilos com patas negras — fato que nos impõe uma atitude de humildade que se vai transformando em inves­tigação científica decente. Mas as coisas são muito diferentes, e de uma maneira geral desanimadoras, quando tentamos es­tudar o bicho-homem. O próprio zoólogo, que está habituado a chamar cada animal pelo seu nome, não deixa de ter dificul­dades em evitar a petulância das implicações subjetivas. Pode­remos ultrapassá-las em parte se decidirmos, modesta e deliberadamente, encarar o ser humano como se fosse qualquer outra espécie, uma estranha forma viva que aguardasse que o estudem, na mesa de dissecação. Como começar?

Tal como aconteceu com o novo esquilo, podemos começar por compará-lo com outras espécies mais ou menos semelhan­tes. Em face das suas mãos, dos seus dentes, dos seus olhos e de outras características anatômicas, não temos dúvidas de que se trata de um primata, embora de uma natureza muito singular. A singularidade torna-se manifesta se dispusermos das peles correspondentes às cento e noventa e duas espécies conhecidas de macacos e símios e tentarmos arrumar a pele humana no meio dessa série, no ponto que nos pareça mais adequado. Coloque-se onde se colocar, a pele humana nos parecerá sempre deslocada. Podemos, eventualmente, ser ten­tados a colocá-la numa das extremidades da série, ao lado das peles dos grandes símios sem cauda, como o gorila e o chimpanzé. Ainda assim, a diferença é impressionante. As pernas são compridas demais, os braços muito curtos e os pés bas­tante estranhos. Essa espécie de primatas desenvolveu, sem dúvida, um tipo especial de locomoção que lhe modificou a forma. Mas outra característica nos chama a atenção: a pele não tem praticamente pêlos. Com exceção de alguns tufos de cabelos sobre a cabeça, nas axilas e em volta dos órgãos genitais, a superfície da pele é completamente pelada. Ao com­pará-la com a das restantes espécies, o contraste é dramático. É certo que algumas espécies de macacos e símios têm peque­nas zonas peladas no traseiro, na face ou no tórax, mas nem uma só dentre as cento e noventa e duas espécies tem aspecto que se possa aproximar ao da condição humana. Nesse momen­to, antes de prosseguir as investigações, justifica-se que se cha­me "macaco pelado" a essa nova espécie. É um nome simples, descritivo, baseado numa primeira observação, e que não im­plica outras suposições. É mesmo possível que nos ajude a guardar o sentido das proporções e a manter objetividade.

Continuando a observar esse estranho exemplar e tentan­do decifrar o significado das suas características singulares, o zoólogo tem agora de começar a estabelecer comparações. Em que outras circunstâncias não há pêlos? De qualquer maneira, não será entre os outros primatas. É preciso procurar mais longe. Uma revisão rápida de todos os mamíferos existentes vem-nos logo mostrar que quase todos têm revestimento piloso protetor e que só raras exceções, dentre quatro mil, duzentas e trinta e sete espécies existentes, se decidiram a abandoná-lo.

Ao contrário dos seus antepassados répteis, os mamíferos adquiriram a grande vantagem fisiológica de poderem conser­var uma temperatura corporal elevada e constante. Isso man­tém o delicado maquinismo destinado às atividades do orga­nismo em condições de realizar os feitos mais ambiciosos. Não se trata, assim, de uma propriedade que se comprometa ou despreze tranqüilamente. Os instrumentos de regulação da tem­peratura têm importância vital, e a posse de um revestimento piloso, espesso e isolador, desempenha certamente um papel fundamental para impedir as perdas de calor. Por outro lado, o revestimento protege igualmente contra o calor exagerado, evitando que a pele se estrague em virtude da exposição direta aos raios solares. Quando os pêlos desaparecem, isso deve for­çosamente obedecer a razoes muito poderosas. Salvo raras exce­ções, essa medida drástica só foi tomada no caso de mamífe­ros que se instalaram num meio completamente novo. Os ma­míferos voadores, ou morcegos, foram obrigados a perder os pêlos da asas, mas conservaram-nos no resto do corpo, de modo que não podem considerar-se uma espécie pelada. Alguns ma­míferos escavadores — como a toupeira pelada, o oricterope sul-africano e o tatu sul-americano, por exemplo — reduziram o respectivo revestimento piloso. Os mamíferos aquáticos, como as baleias, golfinhos, porcos-marinhos, peixes-boi, dugongos e hipopótamos, também se tornaram pelados para viver na água. Mas o revestimento piloso continua a ser regra entre os mamíferos típicos, que vivem na superfície, quer corram pelo chão, quer trepem pelas árvores. Salvo os gigantes anor­malmente pesados, como os rinocerontes e elefantes (com pro­blemas de alimentação e esfriamento muito particulares), o macaco pelado é o único que não tem pêlos entre todos os milhares das espécies mamíferas terrestres, que são hirsutas, peludas ou felpudas.

Nessa altura, o zoólogo tem de concluir que ou se trata de um mamífero escavador ou aquático, ou que existe qualquer coisa muito esquisita, e mesmo exclusivamente peculiar, na história evolutiva do macaco pelado. A primeira coisa a fazer, mesmo antes de se partir para o campo e observar o animal na sua forma atual, será debruçar-se sobre o seu passado e exa­minar, o mais perto possível, os seus antepassados mais chegados. Talvez consigamos obter uma certa idéia do que suce­deu a esse novo tipo de primata se examinarmos os fósseis e outros vestígios e se olharmos para os seus parentes mais pró­ximos que ainda estão vivos.

Levaria muito tempo expor aqui todas as provas que foram cuidadosamente reunidas durante o século passado. Em vez de o fazer, partimos do princípio de que isso está feito e co­nhecido e limitamo-nos a resumir as conclusões que se podem tirar, coligindo todas as informações provenientes dos trabalhos dos paleontólogos esfomeados-de-fósseis e os fatos cole­cionados pelos pacientes etólogos espreitadores-de-macacos.

O grupo dos primatas, a que pertence o nosso macaco pe­lado, provém originalmente de um tronco insetívoro. Esses primeiros mamíferos eram criaturas insignificantes e pequenas, que se esgueiravam nervosamente pelas florestas abrigadas, ao mesmo tempo que os répteis todo-poderosos dominavam o mundo animal. Há cerca de oitenta ou cinqüenta milhões de anos após o desmoronamento da grande era dos répteis, os pe­quenos comedores de insetos começaram a aventurar-se a ex­plorar novos territórios. Foi então que se espalharam e cres­ceram sob muitas formas estranhas. Alguns tornaram-se come­dores de plantas, escavando o solo para se protegerem ou de­senvolvendo pernas longas, com andas, para melhor escapuli­rem dos inimigos. Outros transformaram-se em assassinos, com garras compridas e dentes aguçados. Embora os grandes répteis tivessem abdicado e desaparecido da cena, a natureza continuava a ser um campo de batalha.

Entretanto, ainda continuavam a existir os tais bichinhos de patas pequenas, com as quais se agarravam à segurança da vegetação da floresta. Também aqui se registrou progresso. Os comedores de insetos iniciais começaram por alargar a alimentação e resolver certos problemas digestivos, devorando frutos, nozes, bagas, brotos e folhas. À medida que evoluíram no sentido das formas rudimentares dos primatas, a visão me­lhorou, os olhos deslocaram-se para a frente da face e as mãos transformaram-se para melhor agarrar a comida. Providos de visão tridimensional, de membros capazes de manipular e de cérebros que iam crescendo pouco a pouco, os primatas come­çaram a dominar cada vez mais o seu mundo das árvores.

Há cerca de vinte e cinco ou trinta e cinco milhões de anos, esses pré-macacos já haviam iniciado a evolução no sentido de macacos propriamente ditos. Começaram a criar longas cau­das, enquanto o tamanho do corpo ia aumentando considera­velmente. Alguns já se preparavam para se especializar em comer folhas, mas a maioria continuava a manter uma alimen­tação mista bastante variada. Com o tempo, algumas dessas criaturas macacóides tornaram-se maiores e mais pesadas. Em vez de continuarem a saltar e pular, passaram a bracejar — oscilando de mão para mão, suspensas entre os ramos. As caudas tornaram-se obsoletas. Como o tamanho lhes tornasse mais incômodo viver entre as árvores, foram perdendo o medo de uma ou outra escapada até o solo.

Mesmo assim, nessa fase — a fase dos macacos — ainda faltava muito para se atingir a confortável fartura da floresta do Paraíso. Esses primatas apenas se arriscavam a penetrar nos grandes espaços abertos quando o meio ambiente para lá os empurrava. Ao contrário dos primeiros mamíferos explora­dores, os macacos tinham-se especializado em viver nas árvo­res. Tal aristocracia florestal aperfeiçoara-se no decurso de milhões de anos e se a abandonassem agora teriam de com­petir com aqueles que simultaneamente tinham-se desenvolvido como herbívoros e como assassinos terrestres. E assim se dei­xaram ficar, mascando calmamente os seus frutos, sem se preocuparem com o resto.

É preciso dizer que, por motivos desconhecidos, esse ramo de símios apenas se desenvolveu no Velho Mundo. Os maca­cos tinham-se desenvolvido separadamente como trepadores de árvores tanto no Velho como no Novo Mundo, mas o tron­co americano dos primatas nunca atingiu a fase de símio. No Velho Mundo, pelo contrário, os símios primitivos continuaram a espalhar-se ao longo de uma vasta floresta que se estendia desde a África ocidental até o sudeste asiático. Existem ainda descendentes desse processo de desenvolvimento, que são os chimpanzés e gorilas africanos e os gibões e orangotangos asiá­ticos. Entre os dois extremos, o mundo de hoje já não tem mais símios peludos. Desapareceram as florestas luxuriantes.

Que aconteceu aos símios originais? Sabe-se que o clima começou a contrariá-los e que, há cerca de quinze milhões de anos, os seus redutos florestais foram enormemente reduzi­dos. Os símios primitivos foram obrigados a escolher entre dois caminhos: ou se mantiveram no que restou das florestas antigas, ou tiveram de se resignar, quase num sentido bíblico, a serem expulsos do Paraíso. Os antepassados dos chimpanzés, dos gorilas, dos gibões e dos orangotangos deixaram-se ficar, e desde então nunca mais cessaram de diminuir. Os antepassa­dos do outro símio que sobreviveu — o macaco pelado — atreveram-se a abandonar a floresta e lançaram-se na compe­tição com os outros animais terrestres, já então eficientemente adaptados ao solo. Era uma empresa arriscada, mas que pagou juros, em termos de progresso evolutivo.

É bem conhecida a história dos êxitos do macaco pelado a partir dessa altura, mas é necessário resumi-la, porque é vital não esquecer os acontecimentos que se seguiram, se pretende­mos algum progresso objetivo no conhecimento do compor­tamento atual da nossa espécie.

Os nossos antepassados encontraram-se diante de um futu­ro bastante sombrio quando mudaram de ambiente. Ou se tor­navam melhores assassinos que os carnívoros já experimenta­dos, ou melhores pastadores que os herbívoros já existentes. Sabemos hoje que, de certo modo, eles foram bem sucedidos em ambos os setores; mas a agricultura tem apenas uns escas­sos milênios, e ainda temos de percorrer vários milhões de anos de história para lá chegar. Os nossos primeiros antepas­sados não tinham ainda capacidade para encarar a exploração especializada da vida vegetal em campo aberto e tinham que aguardar o desenvolvimento das técnicas avançadas dos tempos modernos. Nem sequer possuíam um aparelho digestivo capaz de se lançar diretamente à conquista dos alimentos fornecidos pelas extensões de erva que se lhes deparavam. A alimentação de frutas e nozes que mantinham na floresta podia ser substi­tuída pelas raízes e bulbos colhidos no solo, mas com rigorosas limitações. Em vez de colher preguiçosamente um saboroso fruto maduro no ramo de uma árvore, o macaco terrestre em busca de. vegetais via-se obrigado a escarafunchar laboriosa­mente a terra dura para desenterrar a preciosa comida.

Contudo, a antiga alimentação da floresta não se limitava a frutos e nozes. As proteínas animais eram-lhe igualmente muito necessárias. No fim de contas, o macaco pelado des­cendia dos insetívoros primitivos e nunca tivera dificuldade em se abastecer de insetos enquanto vivera na floresta. Esta­va habituado a saborear ricos petiscos, como suculentos besouros, ovos, pequenos filhotes desprotegidos, rãzinhas e até alguns pequenos répteis, que nem sempre representavam pro­blema para o seu aparelho digestivo, relativamente desenvol­vido. No solo abundava igualmente esse gênero de comida, e nada o impedia de alargar mesmo a alimentação. A princípio, o macaco pelado não podia competir com os assassinos pro­fissionais do mundo carnívoro. Até o minúsculo mangusto, para não falar num gato grande, era mais exímio em matar. Mas, ao mesmo tempo, era fácil apanhar animais jovens de todas as raças, desprotegidos ou doentes, e o primeiro passo para se tornar carnívoro não foi muito difícil. Contudo, as verdadeiras grandes presas tinham compridíssimas pernas e escapuliam a grande velocidade à primeira aproximação. Os ungulados, riquíssimos em proteínas, estavam completamente fora de alcance.

Assim chegamos mais ou menos ao último milhão de anos na história do macaco pelado, entrando numa série de aconte­cimentos desalentadores e progressivamente dramáticos. É muito importante não esquecer que aconteceram várias coisas ao mesmo tempo. Quando se contam histórias, comete-se mui­tas vezes o abuso de separar as diferentes partes, como se cada progresso conduzisse a outro, mas essa atitude é com­pletamente falsa e enganadora. Os primeiros macacos terrestres possuíam já grandes cérebros de alta qualidade. Tinham bons olhos e mãos capazes de agarrar eficientemente as presas. Pelo fato de serem primatas, tinham também, inevitavelmente, um certo grau de organização social. À medida que as cir­cunstâncias os obrigavam a aperfeiçoar-se na matança das presas, começaram a ocorrer modificações vitais: tornaíam-se mais eretos — correndo melhor e mais rapidamente; as mãos libertaram-se das atividades locomotoras — permitindo empunhar armas com mais força e eficácia; os cérebros torna­ram-se mais complexos — tomando decisões mais rápidas e inteligentes. Tudo isso não se sucedeu segundo uma ordem bem estabelecida; os vários progressos foram-se acentuando ao mesmo tempo, com pequeninos melhoramentos de uma ou outra qualidade, cada um dos quais estimulava outros aperfeiçoamentos. A pouco e pouco ia-se formando um ma­caco caçador, um macaco assassino.

Pode-se objetar que essa evolução poderia ter conduzido a um progresso menos drástico, originando um assassino mais parecido com o cão ou com o gato, uma espécie de macaco-gato ou de macaco-cão, através de um processo mais simples de desenvolvimento dos dentes e das unhas em forma de ar­mas selvagens, como as fauces e as garras. Mas isso teria co­locado o macaco terrestre primitivo em competição direta com os gatos e cães que já existiam, e que eram assassinos muito especializados. Corresponderia a uma competição baseada nas condições já existentes, e o resultado não poderia deixar de ser desastroso para os primatas em questão. (Ao que se sabe, essa hipótese pode mesmo ter-se dado com tão maus resulta­dos que nem sequer teria deixado vestígio.) Em vez disso, fez-se uma tentativa completamente nova, em que se empregaram armas artificiais em lugar de armas naturais, o que dou re­sultado.

Seguiu-se a passagem da fase de utilização de instrumen­tos à do respectivo fabrico, ao mesmo tempo que se aperfei­çoaram as técnicas de caça, em relação tanto às armas quanto à cooperação social. Os macacos caçadores dedicavam-se à caça coletiva e, à medida que aperfeiçoavam as respectivas técnicas, aperfeiçoavam igualmente os métodos de organização social. Quando os lobos caçam, dispersam-se depois do ataque, mas o macaco caçador já tinha um cérebro muito mais de­senvolvido que o do lobo, pelo que podia utilizá-lo em pro­blemas complicados, como a comunicação de grupo e a coo­peração. Podia assim atrever-se a manobras cada vez mais complexas. O cérebro continuava a crescer.

Essencialmente, havia um grupo de machos caçadores. As fêmeas estavam já muito ocupadas em criar os filhos para poderem participar ativamente na perseguição e na captura das presas. À medida que aumentava a complexidade da caça e as expedições se tornavam mais longas, o macaco caçador teve de abandonar os caminhos sinuosos e nômades dos seus antepassados. Era necessário ter uma base fixa, um local para onde trouxesse os despojos, onde se mantivessem as fêmeas e as crias e onde pudessem partilhar a comida. Como veremos adiante, esse passo teve uma influência profunda em muitos aspectos do comportamento dos macacos pelados, mesmo dos mais requintados que hoje existem.

Desse modo, o macaco caçador tornou-se um macaco ter­ritorial. Todas as suas normas sexuais, familiares e sociais começaram a mudar. A antiga forma de viver, vagabunda, de apanhar frutos aqui e acolá, foi desaparecendo pouco a pouco. O jardim do Paraíso tinha, de fato, ficado para trás. Daqui para o futuro, tratava-se de um macaco com respon­sabilidade. Começou a preocupar-se com os equivalentes pré-históricos das máquinas de lavar e dos frigoríficos. Começou a desenvolver o conforto caseiro — fogo, despensa, abrigos artificiais. Mas temos de ficar agora por aqui, senão afastamo-nos do domínio da biologia e embrenhamo-nos no da cultura. A base biológica de todo esse progresso reside no desenvolvi­mento de um cérebro suficientemente grande e complexo que permitiu que o macaco caçador evoluísse. Mas a forma exata assumida por esse progresso já não depende de uma orienta­ção genética específica. O macaco da floresta, que se tornou macaco terrestre, que se tornou macaco caçador, que se tornou macaco territorial, acabou por se tornar macaco culto e de­vemos parar temporariamente aqui.

Vale a pena insistir mais uma vez em que não nos inte­ressam neste livro as explosões culturais maciças que se segui­ram, das quais o macaco pelado se sente hoje tão orgulhoso — a progressão dramática que o conduziu, apenas em meio milhão de anos, da fase em que começou a fazer fogo até a construção de um foguete espacial. É, sem dúvida, uma his­tória emocionante, mas o macaco pelado pode deslumbrar-se a tal ponto, que se arrisca a esquecer que por baixo da sua bri­lhantíssima aparência continua a ser, em muitos aspectos, um primata. ("Um macaco é um macaco, um velhaco é um velhaco, quer se vistam de seda ou de trapo...") Até o próprio macaco espacial precisa urinar.

Só poderemos adquirir uma compreensão objetiva e equi­librada da nossa extraordinária existência se lançarmos um olhar duro sobre as nossas origens e estudarmos os aspectos biológicos do atual comportamento da nossa espécie.

Se aceitamos a história da nossa evolução tal como atrás foi resumida, há um fato que se impõe com clareza: desenvolvemo-nos essencialmente como primatas de rapina. Isso tor­na-nos únicos entre os macacos e símios existentes, mas conhe­cem-se transformações semelhantes em outros grupos zoológi­cos. A panda gigante, por exemplo, é um caso típico do processo inverso. Enquanto passamos de vegetarianos a carnívoros, a panda passou de carnívora a vegetariana e, em muitos aspectos, é uma criatura tão extraordinária e única como nós. Isso explica-se porque uma grande transformação desse gênero produz um animal com dupla personalidade. Uma vez dobrado o limiar, assume-se o novo papel com grande energia evolutiva — tão grande, que se conservam algumas das características anteriores. Ainda não houve tempo para se libertar de todos os velhos traços, mas apressa-se a adquirir novas características. Quando os peixes primitivos conquista­ram a terra seca, desenvolveram novas qualidades terrestres, ao mesmo tempo que continuavam arrastando antigas quali­dades aquáticas. Leva milhões de anos o aperfeiçoamento de um espetacular novo modelo de animal, e as formas pioneiras constituem em regra misturas muito peculiares. O macaco pe­lado é uma dessas misturas. Todo o seu corpo e modo de vida foram desenvolvidos para viver entre as árvores e, subitamente (subitamente em termos de evolução...), foi projetado num mundo onde apenas poderia sobreviver se se comportasse como um lobo inteligente e colecionador de armas. Assim, temos de examinar exatamente como isso repercutiu, não só no corpo do macaco pelado, mas sobretudo no seu comportamento, e como é que a influência dessa herança se manifesta hoje so­bre nós.

Uma das maneiras de o fazer será comparar a estrutura e o modo de vida de um primata frugívoro "puro" com os de um carnívoro "puro". Só depois de termos idéias bem claras sobre as diferenças fundamentais dependentes dos dois tipos opostos de alimentação, poderemos reexaminar a situação do macaco pelado e perceber o resultado da mistura.

As grandes vedetes no grupo dos carnívoros são, por um lado, os cães selvagens e os lobos, e, por outro, os grandes gatos, como os leões, tigres e leopardos. Eles são providos de órgãos dos sentidos delicadamente aperfeiçoados. Têm um ouvido muito apurado e podem desviar as orelhas, pára captar melhor os mínimos sussurros e roncos. Embora os olhos se­jam relativamente pobres em relação a pormenores estáticos e à cor, reagem de maneira incrível ao menor movimento. Têm um olfato tão aperfeiçoado, que nos é difícil compreendê-lo. Devem ser capazes de sentir uma autêntica paisagem de chei­ros. Não só são capazes de identificar com infalível precisão um cheiro individual, mas igualmente de destrinçar os vários componentes de um cheiro complexo. Algumas experiências feitas com cães, em 1953, indicaram que seu olfato é um bi­lhão de vezes mais apurado que o nosso. Tão surpreendentes resultados foram postos em dúvida, não tendo sido confirma­dos por vários estudos mais cuidadosos; até mesmo os cálculos mais prudentes consideram que o olfato dos cães é cerca de cem vezes superior ao nosso.

Além desse extraordinário equipamento sensorial, os cães bravios e os grandes gatos têm uma maravilhosa constituição atlética. Os gatos especializaram-se como rapidíssimos corre­dores velocistas e os cães como vigorosos corredores fundistas. Quando matam, podem servir-se de mandíbulas poderosas, de aguçados dentes selvagens e, no caso dos grandes gatos, de membros anteriores muito musculosos, armados de enormes garras como pontas de punhal.

Para esses animais, a ação de matar passou a ser um ver­dadeiro fim. É certo que raramente assassinam de maneira arbitrária ou esbanjadora, mas, quando estão em cativeiro e lhes fornecem alimentos já mortos, o instinto caçador desses carnívoros fica longe de ser satisfeito. Sempre que um cão doméstico é levado a passear pelo dono, ou é incitado a ir bus­car e trazer um pedaço de pau, a sua necessidade básica de caçar está sendo satisfeita de uma forma melhor do que quan­do lhe fornecem os mais variados pitéus caninos enlatados. Mesmo os gatos domésticos mais empanturrados anseiam por uma escapada noturna, na esperança de saltar em cima de al­gum pássaro desprevenido.

O aparelho digestivo dos carnívoros está preparado para suportar períodos de jejum relativamente longos, seguidos de far­tos festins. (Um lobo, por exemplo, pode comer um quinto do seu peso numa só refeição — o que equivaleria a um de nós comer de quinze a vinte quilos de carne de uma só vez.) A alimentação dos carnívoros é altamente nutritiva, deixando poucos desperdícios. Contudo, seus excrementos são porcos e malcheirosos e a defecação implica tipos de comportamento especial. Em alguns casos, as fezes chegam a ser enterradas em lugares que são em seguida cuidadosamente cobertos. Nou­tros casos, os carnívoros vão defecar a uma grande distância do refúgio habitual. Quando as pequenas crias sujam o abrigo, as fezes são comidas pela mãe, o que mantém a casa limpa.

Os carnívoros costumam armazenar comida. Podem enterrar carcaças ou outros despojos, tal como o fazem os cães e cer­tos tipos de gatos, ou podem levá-los para um refúgio no cimo das árvores, como faz o leopardo. Os períodos de intensa ati­vidade muscular durante as fases de caça e matança interca­lam-se com os de grande preguiça e relaxamento. No decurso de encontros sociais, as armas selvagens, tão importantes para a caça, constituem uma ameaça potencial para a vida e são utilizadas para resolver as mais íntimas disputas e rivalidades. Quando dois lobos ou dois leões se zangam, ambos estão tão fortemente armados, que, em questão de segundos, a luta pode originar mutilação ou morte. Isso podia ameaçar de tal ma­neira a sobrevivência das espécies, que, durante a longa evo­lução em que foram aperfeiçoando suas mortíferas armas de caça, os carnívoros tiveram igualmente necessidade de criar poderosas inibições quanto ao uso das armas contra os outros indivíduos da própria espécie. Tais inibições parecem ter uma base genética específica: não precisam ser aprendidas. Cria­ram-se posturas submissivas especiais, as quais apaziguam au­tomaticamente um animal dominador e inibem-no de atacar. Esses sinais particulares constituem uma parte vital do modo de vida dos carnívoros "puros".

Os métodos de caça propriamente ditos variam de espécie para espécie. Para o leopardo, trata-se de esperas e embosca­das solitárias que culminam com um salto. Para a chita, trata-se de uma ronda cuidadosa que termina com uma corrida a toda velocidade. Para o leão, trata-se geralmente de uma atividade de grupo, em que a presa é assustada por um dos leões e dirigida para os locais onde os outros se escondem. Para uma matilha de lobos, pode implicar manobras de cerco, seguidas de uma verdadeira chacina. Para uma matilha de cães caçado­res africanos, trata-se de uma autêntica corrida implacável, em que os cães se sucedem uns aos outros no ataque à presa, até que esta fraqueja devido à perda de sangue.

Recentes estudos feitos na África revelaram que a hiena malhada é também um animal selvagem que caça em grupo, não se alimentando passivamente de despojos, como antes se pensava. A explicação do erro reside no fato de as hienas ape­nas se agruparem de noite e de sempre irem aproveitando al­guns despojos durante o dia. Mal anoitece, as hienas tornam-se assassinos implacáveis, tão eficientes como os cães caçadores durante o dia. Às vezes, os grupos chegam a reunir trinta ca­çadores, correndo mais depressa que as zebras e antílopes que perseguem, os quais não conseguem atingir as velocidades com que andam de dia. As hienas começam a dilacerar as pernas das presas, até que uma delas acaba por não poder acompa­nhar a manada em fuga. Todas as hienas caem sobre essa vítima e lhe dilaceram o corpo até matá-la. As hienas refu­giam-se em esconderijos comuns, em que se podem agrupar entre dez e cem animais. As fêmeas não se afastam da vizi­nhança do esconderijo, mas os machos deslocam-se mais e podem ir explorar outras regiões. Existe uma agressividade considerável entre os diferentes "clãs" ou grupos de hienas, sobretudo se um animal isolado é apanhado fora do seu pró­prio território, mas a agressividade é muito menor entre os membros do mesmo "clã".

Sabe-se que numerosas espécies costumam partilhar a comi­da. Evidentemente que não há grandes problemas quando a caçada foi grande e há carne bastante para todos, mas em al­guns casos a partilha vai mais longe. Os cães caçadores africa­nos, por exemplo, regurgitam comida de uns para os outros, quando a caçada acabou. Essa prática atinge por vezes tais li­mites, que se chegou a dizer que esses animais têm um "estô­mago comum".

Os carnívoros preocupam-se bastante com a alimentação das crias. As leoas vão caçar e trazem carne para o abrigo, ou engolem mesmo grandes pedaços, que regurgitam para as crias. Parece que os leões, às vezes, ajudam nessa tarefa, mas isso não é regra. Os lobos machos, pelo contrário, chegam a deslocar-se mais de vinte quilômetros para arranjar comida para as fêmeas e crias. Podem transportar grandes ossos su­culentos para os filhos roerem ou engolir pedaços de carne, que regurgitam à entrada do abrigo.

Vimos, assim, alguns dos principais aspectos dos carní­voros especializados relacionados com o respectivo modo de vida de caçadores. Comparemo-los com os dos macacos e sí­mios tipicamente frugívoros.

Nos primatas superiores, o equipamento sensorial é muito mais dominado pelo sentido da visão do que pelo olfato. No mundo das árvores, é muito mais importante ver bem do que cheirar bem, e o focinho reduziu-se consideravelmente, para que os olhos possam ver melhor. A cor dos frutos é um indício importante quando se procura comida, e os primatas adqui­riram uma boa visão das cores, ao contrário dos carnívoros. Também têm olhos mais preparados para captar os pormenores estáticos. Comem comida estática, pelo que é menos im­portante perceber movimentos ínfimos do que distinguir cer­tas pequeninas diferenças de forma e de consistência. O ouvi­do tem importância, mas não tanta como para os assassinos exploradores, e os primatas têm orelhas menores, que não se movem como as dos carnívoros. O sentido do gosto é mais re­finado. A alimentação é mais variada e muito saborosa — há muito mais coisas para apreciar. Nota-se particularmente uma forte reação positiva aos objetos com sabor doce.

O físico do primata é bom para trepar, mas não está prepa­rado para corridas de velocidade no solo, nem para proezas de longo fôlego. Trata-se mais de um corpo ágil de acrobata do que da envergadura de um atleta poderoso. As mãos são boas para agarrar, mas não para dilacerar ou para ferir. As mandíbulas e os dentes são razoavelmente fortes, mas nada que se compare com o maciço e esmagador aparelho preênsil dos carnívoros. O assassínio ocasional de pequenas presas in­significantes não exige grandes esforços. Na verdade, matar não é um aspecto fundamental no modo de vida dos primatas.

A alimentação vai-se fazendo ao longo de grande parte do dia. Em vez de grandes festins empanturrados seguidos de lon­gos jejuns, os macacos e símios passam a vida a mastigar — uma vida de ininterrupto petiscar. Evidentemente que há pe­ríodo de repouso, tipicamente no meio do dia e durante a noite, mas o contraste é, no entanto, bem evidente. A comida estática está sempre à mão, esperando que a colham e ingi­ram. Os animais não têm mais que se deslocar de um lo­cal de alimentação para outro, segundo os caprichos do pró­prio gosto ou as variedades de frutos em cada estação. Não há a necessidade de armazenar comida, exceto em alguns ma­cacos, que o fazem, de forma muito temporária, nas boche­chas.

As fezes não são tão malcheirosas como as dos carnívoros e não exigem quaisquer cuidados especiais, visto que caem do cimo das árvores para bem longe dos animais. Como o grupo vive em constante movimento, não há grande perigo de que a região se torne exageradamente porca ou fedorenta. Mesmo os grandes símios que se deitam em abrigos especiais fazem a cada noite a cama em lugares diferentes, pelo que não há mo­tivos para preocupações higiênicas. (Ao mesmo tempo, é bas­tante curioso verificar que 99% dos ninhos de gorila abando­nados numa certa região africana continham fezes e que em 73% dos casos os animais se tinham mesmo deitado em cima. Isso pode representar riscos de doenças, por aumentar as pro­babilidades de reinfecção, e é bom exemplo do desinteresse básico dos primatas em relação às fezes.)

Como os alimentos são estáticos e abundantes, os grupos de primatas não precisam se separar para procurar comida. Os animais movem-se, fogem, descansam e dormem juntos, formando uma comunidade bem unida, em que cada membro observa os movimentos e ações de todos os outros. Em qual­quer momento, cada indivíduo do grupo tem uma idéia ra­zoável acerca do que os outros fazem. Essa conduta é tipica­mente não carnívora. Mesmo nas espécies de primatas que se separam de tempos em tempos, as unidades menores nun­ca são constituídas por um só indivíduo. Um macaco ou um símio solitário é uma criatura vulnerável. Faltam-lhe as armas poderosas dos carnívoros, os quais facilmente o atacariam se o apanhassem isolado.

Entre os primatas, não há muito espírito cooperativo, como sucede entre outros animais — os lobos, por exemplo — que caçam em grupo. Existe sobretudo competição e dominação. Claro que em ambos os grupos existe competição na hierar­quia social, mas no caso dos macacos e símios não há ativida­des cooperativas que a atenuem. Também não há necessidade de manobras complicadas ou coordenadas: o conjunto dos atos alimentares não tem qualquer complexidade. O primata tira muito mais rendimento do tempo, visto que lhe basta mover as mãos e a boca.

Como o primata se nutre daquilo que o rodeia, não pre­cisa de grandes deslocações. Têm-se estudado cuidadosamente os movimentos de grupos de gorilas selvagens, os maiores pri­matas que existem, e sabe-se que eles viajam em média cerca de meio quilômetro por dia. Por vezes, contentam-se em per­correr umas dezenas de metros. Pelo contrário, os carnívoros têm freqüentemente de viajar muitos quilômetros numa úni­ca excursão de caça. Conhecem-se casos em que a expedição atingiu mais de setenta quilômetros, ocupando vários dias antes do regresso ao abrigo. Esse hábito de regressar a um abrigo fixo é característico dos carnívoros e muito menos comum entre macacos e símios. É certo que um grupo de primatas vive em regra numa região bem delimitada, mas passará provavelmente a noite no ponto em que calhou interromper as andanças diurnas. O primata acabará por conhecer a área em que vive, porque passa a vida a vaguear através dela, mas tende a percorrê-la muito mais ao acaso. Também se nota que a agressividade entre vários grupos, assim como a atitude defensiva, é muito menos marcada que entre os carnívoros. Por definição, um território é uma área proibida, motivo pelo qual os primatas não são verdadeira­mente animais territoriais.

Um pequeno pormenor, mas bastante importante, é que os carnívoros têm pulgas e os primatas não. Os macacos e símios são empestados por piolhos e outros parasitas externos, mas, contrariamente à opinião popular, nunca têm pulgas, por uma razão muito simples. Para compreendê-la, é preciso estudar o ciclo evolutivo das pulgas. Esses insetos põem ovos não no corpo dos hospedeiros, mas entre os detritos que se encontram no local onde a vítima dorme. Os ovos levam três dias para chocar dando lugar a umas pequeninas larvas raste­jantes, que não se alimentam de sangue, mas de substâncias acumuladas no lixo do abrigo ou da toca. Passadas duas sema­nas, elas tecem um casulo e permanecem no estado de pupa durante aproximadamente outro tanto tempo. Então, surgem as formas adultas, prontas a saltar para o corpo de um hospedei­ro conveniente. Assim, pelo menos durante um mês, as pulgas vivem fora do hospedeiro. Daqui resulta claramente que os mamíferos nômades, tal como os macacos e símios, não são incomodados pelas pulgas. Mesmo se algumas pulgas errantes caírem em cima de um deles e se reproduzirem, os ovos ficarão abandonados quando o grupo dos primatas se deslocar, e quan­do as pupas chocarem já não apanharão o hospedeiro para pros­seguir o convívio. Portanto, as pulgas só parasitam os animais que têm uma habitação fixa, como os carnívoros típicos. Veremos adiante o significado desse fato.

Ao comparar os diferentes modos de vida dos carnívoros e dos primatas, concentrei-me naturalmente nos típicos caça­dores de campo livre, por um lado, e nos típicos apanhadores de frutas das florestas, pelo outro. Em ambos os lados há ligei­ras exceções a essas regras gerais, mas temos agora de nos concentrar numa das grandes exceções — o macaco pelado. Até que ponto é ele capaz de se modificar, de combinar a sua herança frugívora com os hábitos carnívoros recentemente adquiridos? Qual foi exatamente o tipo de animal que resultou?

Para começar, ele tinha um equipamento sensorial impró­prio para viver no chão. O nariz era muito frágil, os ouvidos não eram suficientemente apurados. O físico era desesperadoramente inadequado para as difíceis provas de fundo e para os arranques velozes. A personalidade era mais com­petitiva do que cooperativa e, sem dúvida nenhuma, pouco habituada à planificação e à concentração. Tinha, felizmen­te, um excelente cérebro, com uma inteligência geral já mais desenvolvida do que a dos carnívoros, seus rivais. Depois de ter adotado a posição vertical, de ter modificado as mãos num sentido e os pés noutro, de aperfeiçoar ainda mais o cérebro e de puxar por ele tanto quanto podia, o macaco pelado correu o risco.

 

Tudo isso é fácil de dizer, mas demorou muito tempo a realizar e trouxe todas as espécies de repercussões aos res­tantes aspectos da sua vida diária, como veremos nos capí­tulos seguintes. No momento, preocupemo-nos apenas em saber como isso se passou e em que medida influenciou o seu comportamento caçador e alimentar.

Como a batalha havia de ser ganha com a cabeça e não com os músculos, teve de tomar dramáticas medidas evolu­tivas para aumentar a potência do cérebro. Aconteceu uma coisa muito estranha: o macaco caçador tornou-se um macaco infantil. Aliás, esse toque evolutivo não é único; aconteceu num certo número de casos bem distintos. Posto em termos muito simples, trata-se de um processo (chamado neotenia) pelo qual certos caracteres juvenis ou infantis são mantidos e pro­longados na vida adulta. (Um exemplo célebre é o axolotle, um tipo de salamandra que se mantém toda a vida em estado larvar, podendo mesmo reproduzir-se nessa forma.)

Compreende-se melhor como o processo de neotenia pode ajudar o cérebro dos primatas a crescer e a desenvolver-se se considerarmos o feto de um macaco típico. Antes do nasci­mento, o cérebro dos macacos aumenta rapidamente de tama­nho e complexidade. Quando o animal nasce, o cérebro já atingiu 70% do tamanho do cérebro do adulto. Os restantes 30% crescem também rapidamente durante os primeiros seis meses de vida. Mesmo no chimpanzé, o crescimento do cére­bro completa-se antes da idade de doze meses. Pelo contrá­rio, na nossa própria espécie, o cérebro tem à nascença apenas 23% do tamanho do cérebro do adulto. O crescimento rápido prolonga-se durante os seis anos que se seguem ao nasci­mento e o crescimento total não se completa antes dos vinte e três anos de idade.

Assim, em cada um de nós, o cérebro continua a crescer durante cerca de dez anos depois de termos atingido a matu­ridade sexual, enquanto nos chimpanzés o crescimento se completa seis ou sete anos antes de o animal se tornar reprodutoramente ativo. Isso explica muito claramente o que signi­fica dizer-se que nos tornamos macacos infantis, mas é indis­pensável esclarecer a afirmação. Nós (ou melhor, os macacos caçadores, nossos antepassados) tornamo-nos infantis em certos aspectos, mas não em outros. Houve uma defasagem do ritmo de desenvolvimento das nossas diferentes aptidões. Enquanto o sistema reprodutor se acelerou, o crescimento do cérebro perdeu velocidade. O mesmo não aconteceu com vários outros elementos do organismo, alguns dos quais se tornaram muito lentos, outros menos lentos, enquanto outros não se modifi­caram. Em outras palavras, deu-se um processo de infantilismo diferencial. Uma vez desencadeado o processo, a seleção natural foi favorecer o retardamento da formação de todas as partes da estrutura animal que contribuíam para a respec­tiva sobrevivência no novo ambiente, hostil e difícil. O cére­bro não foi a única parte afetada: a postura do corpo foi influenciada no mesmo sentido. Um feto de mamífero tem o eixo da cabeça em posição perpendicular ao eixo do tronco. Se nascesse assim, a cabeça ficaria voltada para o chão quan­do o mamífero se deslocasse a quatro patas; mas, antes do nascimento, a cabeça roda para trás, de forma que o seu eixo prolongue o eixo do tronco. Assim, quando o animal nasce e começa a andar, a cabeça inclina-se para a frente, da ma­neira conhecida. Se esse animal começasse a andar sobre as patas traseiras e em postura vertical, a cabeça apontaria para cima, olhando para o céu. Para um animal vertical, como o macaco caçador, era pois importante conservar o ângulo fetal da cabeça mantido perpendicularmente ao do corpo, de mo­do que a cabeça tendesse para a frente, na nova postura locomotora. Claro que assim aconteceu, constituindo mais um exemplo de neotenia, visto que o estado pré-natal se manteve na fase pós-natal e na idade adulta.

Muitas das outras características físicas do macaco caça­dor foram adquiridas dessa forma: o pescoço longo e esguio, a face achatada, os dentes pequenos e tardios, a ausência de arcadas supraciliares espessas e a não rotação do dedo grande dos pés.

O fato de tantas características embrionárias diferentes re­presentarem uma valiosa potencialidade para as novas fun­ções do macaco caçador forneceu-lhe a saída de que ele pre­cisava. Com um golpe neotênico adquiriu o cérebro de que necessitava e o corpo condizente. Podia, assim, correr em posição vertical, manter as mãos livres para empunhar armas e, ao mesmo tempo, foi desenvolvendo um cérebro capaz de criar armas. Além disso, não só se tornou mais desembaraçado no manejo de objetos, mas também passou a ter uma infância mais longa, durante a qual podia aprender com os adultos. Os macacos e os chimpanzés muito novos são brincalhões, curiosos e inventivos, mas essa fase passa depressa. Nesse particular, a infância dos macacos pelados foi prolongada mesmo através de uma fase já sexualmente adulta. Havia muito tempo para imitar e aprender as técnicas especiais intro­duzidas pelas gerações anteriores. Os seus pontos fracos como caçadores, tanto físicos como instintivos, eram amplamente compensados pela inteligência e capacidade de imitação. Podia ser ensinado pelos adultos de uma forma que nenhum outro animal o fora anteriormente.

Mas o ensino, só por si, não era suficiente, sem ajuda gené­tica. O processo tinha de acompanhar-se de alterações bio­lógicas essenciais na natureza do macaco caçador. Se simples­mente se tomasse um primata típico, daqueles acima descritos, que se alimentavam dos frutos colhidos nas árvores onde vi­viam, e se lhe desse um grande cérebro e um corpo adaptado a caçar, ser-lhe-ia difícil desembaraçar-se como macaco caça­dor sem outras modificações. Teria um tipo de comporta­mento básico defeituoso. O primata poderia ser capaz de pen­sar coisas e de as planejar com muita esperteza, mas as suas necessidades animais fundamentais seriam erradas. O ensino atuaria contra as suas tendências naturais, não só quanto ao comportamento alimentar, mas também quanto ao comporta­mento geral, social, agressivo e sexual e quanto a todos os outros aspectos básicos do comportamento relacionados com sua anterior existência de primata. Se não ocorressem igual­mente alterações geneticamente reguladas, a nova educação do macaco caçador jovem seria uma tarefa impossível. O treino cultural pode conseguir muita coisa, mas, por muito brilhante que seja o funcionamento dos centros superiores do cérebro, estes necessitam de um apoio considerável das outras regiões do organismo.

Se revirmos agora as diferenças entre os carnívoros tipi­camente "puros" e os primatas tipicamente "puros", podere­mos compreender como as coisas se devem ter passado. O carnívoro desenvolvido separa a ação de procurar comida (caçar e matar) da ação de comer. Ambos correspondem a dois diferentes sistemas de motivações, apenas parcialmente interde­pendentes. Isso aconteceu porque a respectiva seqüência é longa e árdua. O ato de comer é tão retardado que a ação de matar tem de constituir uma recompensa por si mesma. Estudos feitos em gatos mostraram que o processo é ainda mais dividido. Agarrar a presa, matá-la, prepará-la (dilacerando-a) e comê-la são atos sucessivos, cada um com seus sistemas de motivação parcialmente independentes. Se um desses tipos de comportamento é satisfeito, os restantes não são automaticamente saciados.

Com o primata frugívoro a situação é inteiramente dife­rente. Cada seqüência alimentar, incluindo a simples busca da comida e a sua ingestão imediata, é comparativamente tão curta, que não necessita de sistemas de motivação separados. Esse é um dos aspectos que teve de ser mudado, de forma radical, no caso do macaco caçador. A caça tinha de ofere­cer a sua própria recompensa, pois não bastaria tratar-se de um aperitivo que precedesse a refeição. Talvez, como nos ga­tos, os atos de caçar, de matar e de preparar a comida tenham criado, qualquer deles, os seus objetivos, os quais teriam passado a constituir fins de certo modo independentes. Cada um teria então encontrado a sua expressão, não indo a sa­tisfação de um ato interferir nos outros. Se examinar­mos — como faremos em capítulo ulterior — o comporta­mento alimentar dos macacos pelados atuais, veremos que há numerosas provas de que se passa qualquer coisa desse gênero.

Além disso, o macaco caçador, quando se tornou um as­sassino biológico (biológico, por oposição a cultural), teve igual­mente de modificar o horário do seu comportamento alimen­tar. Tinha-se acabado o petiscar a toda hora, instituindo-se refeições intervaladas. Iniciou-se o armazenamento de comida. O sistema de comportamento também teve de aceitar a ten­dência para manter habitação fixa. Foi preciso aperfeiçoar o sentido de orientação e os cuidados domésticos. A defecação teve de tornar-se um tipo de comportamento organizado no espaço, uma atividade privada (como nos carnívoros), em vez de uma atividade comum (como nos primatas).

Mencionei atrás que uma das conseqüências de se manter habitação fixa é a possibilidade de se apanhar pulgas. Disse também que os carnívoros têm pulgas e os primatas não. Des­de que o macaco caçador passou a ser o único primata com casa fixa, não podemos esperar outra coisa senão a quebra da regra enunciada. Sabemos que a nossa espécie é atualmen­te parasitada por pulgas, e até temos o nosso tipo especial de pulgas — pertencente a uma espécie diferente das restantes e que evoluiu conosco. Se a pulga teve tempo suficiente para formar uma nova espécie, quer dizer que nos acompanha há muito tempo, a ponto de a podermos considerar uma com­panhia indesejável que se arrasta desde os nossos primeiros tempos de macacos caçadores.

Sob o aspecto social, o macaco caçador aumentou a sua ne­cessidade de comunicar e cooperar com os companheiros. Im­pôs-se tornar mais complicadas as expressões faciais e vocais. Desde que começou a manejar novas armas, viu-se coagido a criar sinais eficientes que inibissem os ataques no seio do gru­po social. Por outro lado, tendo uma habitação fixa a defen­der, teve de acentuar certas respostas agressivas em relação aos grupos rivais.

Em virtude das exigências do novo modo de vida, teve de dominar o poderoso instinto primata de nunca se afastar do grosso do grupo.

Como resultado da cooperação estabelecida e do caráter irregular do aprovisionamento de comida, teve de começar a partilhar os alimentos. Tal como os lobos paternais atrás re­feridos, os macacos caçadores machos também tinham de trazer comida para o abrigo, para alimentar as fêmeas ocupa­das com as crias, que iam crescendo tão lentamente. Esse tipo de comportamento paternal teve de ser uma nova aquisição, porque a regra geral entre os primatas atribui às fêmeas todos os cuidados com os jovens. (Somente os primatas sábios, como o nosso macaco caçador, conhecem realmente o próprio pai.)

Em vista do período extremamente longo em que os filhos são dependentes e mantêm grandes exigências, as fêmeas dei­xavam-se ficar quase permanentemente na habitação. Nesse sentido, o novo modo de vida do macaco caçador criou um problema especial, que não existia entre os típicos carnívoros "puros": o papel de cada sexo tornou-se mais diferenciado. Os grupos de caça, ao contrário dos carnívoros "puros", tiveram de passar a ser exclusivamente formados por machos. E não podia haver nada mais contrário aos hábitos primatas. Não havia notícia de que um primata macho e viril partisse em excursão alimentar, deixando as fêmeas à mercê dos atrevi­mentos de quaisquer outros machos que pudessem aparecer. Não havia treino cultural capaz de modificar a situação. Tra­tava-se de qualquer coisa que exigia uma grande reviravolta no comportamento social.

A resposta para isso foi a criação de uniões aos pares. Os macacos caçadores machos e fêmeas tiveram de se apaixonar e manter-se reciprocamente fiéis. Essa tendência é normal em muitos outros grupos de animais, mas raríssima entre os pri­matas. Resolvia três problemas de uma só vez. Por um lado, as fêmeas mantinham-se unidas aos respectivos machos e guar­davam-lhes fidelidade enquanto eles estivessem fora, na caça. Por outro lado, reduziam-se as rivalidades sexuais entre os machos, o que contribuía para reforçar a cooperação. Para terem êxito nas caçadas em conjunto, tanto os machos fracos como os fortes tinham seu papel a desempenhar. Aos fracos cabia igualmente um papel importante, e não podiam ser postos à margem, como acontece em tantas espécies de primatas. E, ainda por cima, com as novas armas artificiais e mortais, o macaco caçador vivia sob uma forte pressão, para reduzir qualquer fonte de discórdia no seio da tribo. Em terceiro lu­gar, a instituição de uma unidade procriadora constituída por um macho e uma fêmea significava que os descendentes tam­bém seriam beneficiados. A pesada tarefa de criar e treinar jovens, que ainda por cima se desenvolviam com tanta lenti­dão, exigia uma firme unidade familiar. Em outros grupos de animais, como nos peixes, aves ou mamíferos, observam-se fortes ligações aos pares sempre que um dos membros tenha de suportar sozinho uma grande carga, e o macho e a fêmea mantêm-se unidos durante a estação destinada à procriação. Foi o que aconteceu também no caso dos macacos caçadores. Dessa maneira, as fêmeas tinham certeza de que os respectivos machos as manteriam e podiam dedicar-se aos deveres maternais. Os machos estavam seguros da lealdade das suas fêmeas, podiam deixá-las para ir caçar, e evitavam lutar uns contra os outros. E a descendência recebia os maiores cuida­dos e atenções. Embora isso pareça a solução ideal, implicava uma mudança fundamental no comportamento sócio-sexual dos primatas, e, como veremos mais tarde, o método nunca chegou realmente a ser perfeito. Vê-se bem, pelo comporta­mento atual da nossa espécie, que o problema não está com­pletamente resolvido e que os nossos primitivos instintos de primatas continuam a manifestar-se de maneiras mais atenua­das.

Foi assim que o macaco caçador assumiu o papel de um carnívoro assassino, adaptando-lhe os seus hábitos de prima­ta. Sugeri acima que houve mudanças biológicas fundamentais, e não apenas culturais, e que a nova espécie também se modi­ficou geneticamente. O leitor pode não concordar. Pode mes­mo pensar — tal é o poder da doutrinação cultural — que as modificações podem ter resultado de treino e de criação de novas tradições. Duvido. É preciso observar o comportamen­to atual da nossa espécie para o verificar. O desenvolvimento cultural proporcionou-nos progressos tecnológicos cada vez mais impressionantes, mas que encontram forte resistência sempre que se opõem às nossas propriedades biológicas funda­mentais. Os tipos básicos de comportamento estabelecidos nos nossos primeiros tempos de macacos caçadores ainda se ma­nifestam através de toda a nossa atividade, por mais requinta­da que ela seja. Se a organização das nossas atividades mais básicas — alimentação, medo, agressão, sexo, cuidados fami­liares — se tivesse desenvolvido exclusivamente através de meios culturais, teríamos quase seguramente conseguido con­trolá-las com mais eficiência, de forma a estarmos hoje em melhores condições de responder às extraordinárias exigências impostas pelo nosso avanço tecnológico. Mas assim não suce­deu. Teimamos em continuar a baixar a cabeça perante a nossa condição animai e a admitir tacitamente a existência da besta complexa que se agita dentro de cada um de nós. Se formos honestos, teremos de reconhecer que ainda serão precisos vá­rios milhões de anos para transformar essa besta, através do mesmo processo genético de seleção natural que a conservou dentro de nós. Entretanto, as nossas civilizações incrivelmen­te complicadas somente conseguirão prosperar se nós as conce­bermos de forma que não combatam, nem tentem suprimir, as nossas profundas exigências animais. Infelizmente o nosso cé­rebro pensante nem sempre está de acordo com o nosso cére­bro emocional. Numerosos exemplos ilustram de que modo as coisas se desorientaram, em certas sociedades humanas que ruíram ou se tornaram estupidificadas.

Nos capítulos seguintes, procuraremos analisar como isso aconteceu, mas temos primeiro de responder a uma pergunta — à pergunta apresentada no início deste capítulo. A primeira vez que observamos essa estranha espécie notamos-lhe um pormenor que sobressaía imediatamente, quando se colocava um exemplar entre uma longa fila de primatas. Esse pormenor era a pele glabra, que me conduziu, como zoólogo que sou, a cha­mar "macaco pelado" à criatura. Desde então, vimos que o po­deríamos ter designado por variadíssimos nomes, todos ade­quados: macaco vertical, macaco ferramentista, macaco cere­bral, macaco territorial, etc. Mas essas características não são as primeiras que se notam. Encarado simplesmente como exemplar zoológico num museu, o que salta à vista é a falta de pêlos, fato que justifica que lhe conservemos o nome, quanto mais não seja para comparação com outros estudos zoológicos e para não esquecermos que o estamos encarando sob um as­pecto particular. Mas qual é o significado desse estranho por­menor? Por que o macaco caçador se tornou um macaco pela­do? \

Infelizmente, os fósseis não nos podem ajudar quando se traía de diferenças de pele e de cabelo, pois que ninguém sabe ao certo quando se deu a grande queda do pêlo. Não se deu certamente antes de os nossos antepassados terem abandonado as florestas. Trata-se de um fato tão singular, que parece muito mais provável que tenha ocorrido no decurso das grandes transformações processadas nas planícies descobertas. Mas quando aconteceu exatamente e como contribuiu para a sobre­vivência do macaco que então se esboçava?

Esse problema tem, desde há muito, intrigado os especialis­tas e originado inúmeras teorias fantasiosas. Uma das mais prometedoras sugere que a queda dos pêlos corresponda a mais um aspecto do processo de neotenia. De fato, os chimpanzés recém-nascidos têm bastantes pêlos na cabeça, mas o corpo quase pelado. Se o animal adulto mantivesse esse estado por um fenômeno de neotenia, o aspecto piloso do chimpanzé adul­to seria muito parecido com o nosso.

É curioso que a supressão neotênica do crescimento piloso não tenha sido completamente perfeita na nossa espécie. O feto começa a desenvolver-se com o crescimento piloso característi­co dos mamíferos, pois entre o sexto e o oitavo mês de vida intra-uterina está quase completamente coberto de uma penugem. Esse revestimento fetal designa-se lanugem e só cai pou­co antes do nascimento. Os bebês prematuros vêm, por vezes, ao mundo cobertos de lanugem, com grande escândalo dos pais, mas, salvo muito raras exceções, aquela não tarda a cair. Apenas se conhecem trinta casos de famílias cujos descenden­tes adultos tinham o corpo completamente coberto de pêlos.

Mesmo assim, alguns membros adultos da nossa espécie têm numerosos pêlos no corpo — por vezes mesmo mais do que os nossos parentes chimpanzés. Na verdade, não perdemos todos os pêlos, mas apenas nos crescem os mais insignifican­tes. (A propósito, esse fato não se aplica a todas as raças — a ausência de pêlos nos negros é tanto aparente como real.) Por esse motivo, alguns anatomistas afirmam que não nos podemos considerar uma espécie pelada ou glabra, e um dos mais autorizados especialistas no assunto chegou mesmo a dizer que "o qualificativo de 'menos peludo de todos os pri­matas' não corresponde à verdade, pelo que nem sequer se justifica a necessidade das inúmeras teorias bizarras que se têm inventado para explicar essa imaginária ausência de pê­los". Isso é uma pura asneira. É como se pretendêssemos que um homem cego não é cego pelo fato de ter um par de olhos. Funcionalmente, somos completamente pelados e a nossa pele está inteiramente exposta ao mundo exterior. E o fato ainda não foi satisfatoriamente explicado, afora o número de pêlos finos que se possam contar sob uma lupa.

A explicação neotênica apenas sugere como o processo se podia ter desenrolado. Mas nada nos diz sobre a importância da nudez como uma nova característica que tenha contribuído para a sobrevivência do macaco pelado num ambiente hostil. Poderá dizer-se que o fato não tem importância, que é conse­qüência de outras alterações neotênicas mais vitais, como do desenvolvimento cerebral. Mas já vimos que o processo de neotenia consiste no retardamento de certos mecanismos de de­senvolvimento, alguns dos quais se atrasam mais do que outros — o ritmo de crescimento defasa-se. É portanto muito impro­vável que uma característica infantil tão potencialmente peri­gosa como a ausência de pêlos pudesse manter-se apenas devi­do ao retardamento de outras alterações. Isso teria sido rapi­damente resolvido por seleção natural, a não ser que tivesse alguma importância especial para a nova espécie.

Como é que a ausência de pêlos poderia influenciar a sobre­vivência? Uma possível explicação seria o fato de o macaco caçador ter trocado a vida nômade pelos abrigos fixos, os quais passaram a constituir um importante reservatório de pa­rasitas da pele. O hábito de dormir todas as noites no mesmo local deve ter facilitado o crescimento de uma infinidade de carrapatos, traças, pulgas e percevejos, a ponto de constituir um grave risco de doenças. Ao desfazer-se do seu revestimen­to piloso, os habitantes desses abrigos ficavam em melhores condições para encarar o problema.

Talvez essa hipótese tenha certo fundamento, mas só di­ficilmente poderia ter tido uma importância capital. Dentre várias centenas de espécies de mamíferos que vivem em abri­gos, apenas um escasso número delas deram tal passo. No en­tanto, se a ausência de pêlos se processou por outros motivos, facilitou também a remoção dos incômodos parasitas cutâ­neos, tarefa que ainda hoje ocupa grande parte do tempo dos primatas peludos.

Outra hipótese semelhante relaciona-se com os pouquíssi­mos hábitos alimentares do macaco caçador, que lhe sujariam o revestimento piloso, a ponto de constituir igualmente um pe­rigo de doenças. Invoca-se como argumento que os abutres, que mergulham a cabeça e o pescoço em carcaças ensangüen­tadas, perderam as penas nessas partes do corpo; e sugere-se que o mesmo se tenha passado com os macacos caçadores, mas atingindo todo o corpo. Contudo é pouco provável que esses macacos não tenham começado a utilizar instrumentos para limpar os próprios pêlos, antes mesmo de se servirem de ins­trumentos para matar e esfolar a caça. O próprio chimpanzé selvagem usa às vezes folhas de árvores como papel higiênico, quando tem dificuldade em defecar.

Outra explicação seria que a queda do revestimento piloso tivesse resultado do uso do fogo. O macaco caçador apenas sentiria frio durante a noite, e, depois de ter adquirido o luxo de se sentar em volta da fogueira, podia dispensar os pêlos e suportar melhor o calor durante o dia.

Outra teoria, ainda mais engenhosa, admite que o macaco terrestre inicial tenha atravessado uma longa fase aquática antes de se tornar macaco caçador. Ter-se-ia aproximado pri­meiro dos litorais tropicais em busca de comida e encontrado abundantes mariscos e outros animais do litoral, que lhe pro­porcionaram uma alimentação muito mais rica e saborosa do que a da planície. A princípio, os macacos teriam se agrupado em torno das poças das rochas e das águas pouco profundas, mas, a pouco e pouco, teriam começado a nadar e a mergulhar para apanhar comida. Admite-se que tenham assim perdido o pêlo, como aconteceu a outros mamíferos que regressaram ao mar. Apenas a cabeça, que se mantinha fora da água, teria conservado o cabelo, que a protegia dos efeitos diretos do sol. Mais tarde, quando arranjou ferramentas (originalmente obti­das de pedaços de conchas) suficientemente aperfeiçoadas, teria voltado a se afastar do litoral e se dirigido para os espaços des­cobertos, tornando-se caçador.

Essa teoria explica igualmente por que somos hoje tão ágeis na água, enquanto os nossos parentes mais próximos, os chimpanzés, são tão desastrados e se afogam com a maior fa­cilidade. O nosso perfil esguio e a própria postura vertical teriam se desenvolvido enquanto nos aventurávamos a penetrar em águas cada vez mais profundas. A teoria esclarece também um estranho pormenor da nossa distribuição pilosa. De fato, uma observação mais cuidadosa revela que os finos pêlos que ainda conservamos nas costas têm orientação muito diferente da dos outros macacos. No nosso caso, esses pêlos dirigem-se diagonalmente para trás e para dentro, em relação à espinha. Isso segue a direção da corrente de água sobre um corpo que nada e indica que, no caso de o pêlo ter sofrido modificações

antes de cair, se modificou de forma a diminuir a resistência durante a natação. Também se salienta que somos os únicos primatas que têm uma espessa camada de gordura subcutânea. Esta foi interpretada como um equivalente do óleo de baleia ou de foca, que é um dispositivo isolador compensatório. Até agora, não se encontraram outras explicações para esse pormenor da nossa anatomia. O próprio tipo sensitivo das nossas mãos tem sido invocado para apoiar a teoria aquática. De fato, uma mão relativamente tosca pode empunhar um pau ou uma pedra, mas só uma mão muito mais delicada e sensível pode perceber a presença de comida debaixo da água. É possí­vel que o macaco terrestre original tenha adquirido assim a sua supermão, que depois transmitiu já pronta para usar ao macaco caçador. Finalmente, a teoria aquática espicaça os tra­dicionais caçadores de fósseis, que jamais conseguiram desen­terrar as peças fundamentais que poderiam esclarecer certos lapsos do nosso passado, insinuando que, se eles já se tivessem dado ao incômodo de pesquisar em volta dos pontos que cons­tituíam o litoral africano há cerca de um milhão de anos, tal­vez tivessem encontrado grandes surpresas.

Infelizmente, isso ainda não se fez e, apesar das mais tenta­doras provas indiretas, a teoria aquática não encontrou bases verdadeiramente sólidas. Embora possa explicar claramente um certo número de pormenores, essa teoria implica a existência de uma importante fase evolutiva que nunca foi cabalmente demonstrada. (Mesmo que essa teoria um dia possa vir a pro­var-se como verdadeira, não trará grandes contradições ao qua­dro geral da evolução do macaco caçador originado a partir do macaco terrestre. Ensinará apenas que este último passou por uma salutar cerimônia de batismo.)

Outros argumentos, baseados numa orientação completa­mente diferente, sugerem que a perda de pêlos, em vez de de­pender de uma resposta ao ambiente físico, constitui um ver­dadeiro progresso social. Isto é, que ela surgiu hão como um processo mecânico, mas como um distintivo. Em numerosas espécies primatas observam-se áreas peladas que, em alguns casos, funcionam como sinais de identificação da espécie, per­mitindo que os macacos ou símios se reconheçam entre si como pertencendo à mesma ou a diferentes espécies. A ausência de pêlos no macaco caçador seria assim uma característi­ca, escolhida ao acaso, que teria sido adotada como emble­ma distintivo da espécie. É indiscutível que a nudez completa facilita incrivelmente a identificação do macaco pelado, mas há formas muito menos drásticas de atingir o mesmo fim sem sacrificar um valioso revestimento isolador.

Outra sugestão mais ou menos semelhante admite que a au­sência de pêlos faz parte do equipamento sexual. Lembra-se que os mamíferos machos são geralmente mais peludos que as fêmeas e que, exagerando essa diferença sexual, a macaca pelada se tornaria sexualmente mais atraente para o macho. Este também teria tendência para perder pêlos, mas em meno­res proporções e mantendo certas zonas de contraste, como a barba.

Essa última hipótese pode, de fato, explicar as diferenças sexuais quanto à distribuição pilosa, mas também aqui parece que a perda de um poderoso isolador térmico constitui um pre­ço muito elevado para pagar por um simples adorno sexual, apesar de compensado com uma nova camada de gordura sub­cutânea. Há ainda uma ligeira variante dessa mesma idéia, que sustenta que a importância sexual dependia muito mais da sensibilidade ao tato do que do aspecto exterior. Pode-se apoiar essa opinião acrescentando que tanto o macho quanto a fêmea se tornariam mais sensíveis aos estímulos eróticos durante os encontros sexuais quando se mostravam mutuamente as res­pectivas peles nuas. Isso poderia ter aumentado a excitação das atividades sexuais e intensificado as recompensas carnais, fortalecendo os laços entre os casais de uma espécie que estava se tornando cada vez mais acasaladora.

Talvez a explicação mais aceita da condição pelada seja a que a considera como mecanismo de esfriamento. Quando o macaco caçador abandonou as florestas sombrias, começou a expor-se a temperaturas muito superiores àquelas a que estava habituado, admitindo-se que se tenha desfeito do revestimento piloso para se proteger do calor exagerado. Aparentemente, isso é bastante lógico. Nós próprios não hesitamos em tirar o casaco nos dias quentes de verão. Mas a hipótese não resiste a urna crítica mais cuidadosa. Em primeiro lugar, nenhum dos outros animais (de tamanho comparável ao nosso) adotou tais medidas. Se a coisa fosse tão simples como parece, era de prever que existissem leões e chacais pelados; contudo, estes, pelo contrário, têm pêlos curtos, mas espessos. A expo­sição da pele nua ao ar livre aumenta com certeza as perdas de calor, mas ao mesmo tempo também aumenta o seu ganho, tornando possíveis os danos causados pelos raios solares, como é do conhecimento geral. Estudos feitos no deserto demonstraram que o uso de roupa ligeira pode reduzir a per­da de calor, diminuindo a evaporação de água, mas reduz a absorção daquele a partir do ambiente, numa proporção de 55%, comparado com a quantidade de calor obtida quando se está completamente nu. Quando a temperatura é muito ele­vada, as roupas pesadas e largas, do tipo utilizado nos países árabes, constituem melhor proteção do que a roupa muito ligeira. Reduz-se a absorção de calor, ao mesmo tempo que se permite a circulação de ar em volta do corpo e se facilita o efeito refrescante da evaporação do suor.

Claro que a situação é mais complicada do que parece. São muito importantes os níveis exatos da temperatura am­biente e o grau de exposição solar direta. Mesmo partindo do princípio de que o clima fosse favorável à perda de pêlos — quer dizer, um clima moderado, mas não exageradamente quente —, ainda se teria de explicar por que é que os outros carnívoros que habitam nas planícies não são pelados como os macacos caçadores.

A única explicação plausível talvez responda melhor do que qualquer outra a todos os problemas da nossa ausência de pêlos. A diferença fundamental entre o macaco caçador e os seus rivais carnívoros reside nas condições físicas, que não favorecem muito nem grandes corridas de velocidade nem corridas de fundo, embora ele tivesse de se adaptar a esse tipo de atividade. Conseguiu-o em virtude de ter um cérebro mais desenvolvido, que lhe permitiu efetuar manobras mais inteli­gentes e utilizar armas mais eficazes, mas, apesar de tudo, tinha de despender um enormíssimo esforço físico. A caça era tão importante, que o macaco caçador não teve outro remédio senão adaptar-se, mesmo que tal atividade lhe pro­duzisse um considerável aumento de temperatura. Era, pois, fundamental encontrar maneira de o reduzir, mesmo que isso implicasse outros sacrifícios. Tratava-se de uma questão de sobrevivência. E esse deve ter sido o principal fator que levou à transformação do macaco caçador peludo em macaco pelado. A solução era viável através de um processo neotênico que implicaria igualmente outras vantagens secundárias atrás mencionadas. Ao mesmo tempo que perdia o revestimento piloso e aumentava o número de glândulas sudoríparas em toda a superfície do corpo, conseguia um esfriamento consi­derável — sobretudo nos momentos culminantes da caça — com produção de um abundante líquido refrescante que se ia evaporando sobre os membros e o tronco expostos.

Claro que ó método não daria resultado num clima de­masiadamente quente, onde a pele sofreria grandes estragos, mas permitiria suportar ambientes moderadamente quentes. É curioso que esse processo se tenha acompanhado do desenvol­vimento de uma camada de gordura subcutânea, o que indica que em outras ocasiões era necessário conservar o corpo quen­te. Se esse fator parece compensar de certo modo a perda do revestimento piloso, deve-se lembrar que a camada adiposa ajuda a conservar o calor do corpo quando faz frio, sem per­turbar a evaporação do suor quando a temperatura aumenta. A combinação da redução dos pêlos, do aumento das glân­dulas sudoríparas e da camada adiposa subcutânea parece ter proporcionado aos nossos extraordinariamente ativos antepas­sados exatamente aquilo que eles precisavam, visto que a caça era um dos aspectos mais importantes do seu modo de vida.

Assim, aqui está o nosso macaco pelado, vertical, caça­dor, colecionador de armas, territorial, neotênico e cerebral, primata de origem e carnívoro por adoção, preparado para conquistar o mundo. Mas ele é ainda um modelo novo e expe­rimental, e os protótipos têm muitas vezes defeitos. Nesse caso, as principais complicações dependerão do fato de os seus progressos culturais ultrapassarem muitas vezes os genéticos. Os genes atrasaram-se e ele nunca esquecerá que, apesar de todas as modificações que introduza o ambiente, continua, bem no fundo, a ser um macaco pelado.

Nesta altura, vamos deixar o passado e ver como o macaco pelado se comporta hoje. Como resolve ele os eternos problemas de se alimentar, lutar, reproduzir-se e criar os descen­dentes? Até que ponto o seu cérebro-computador foi capaz de reorganizar os seus instintos mamíferos? É possível que tenha feito mais concessões do que gostaria de admitir. Vamos ver.

 

 

Capítulo

 

II SEXO

 

O macaco pelado encontra-se hoje numa situação sexual bastante confusa. De natureza primata, carnívoro por adoção e membro de uma comunidade requintadamente civilizada, debate-se assim entre três diferentes orientações.

Para começar, o macaco pelado deve as suas características sexuais básicas aos antepassados que comiam frutas e viviam na floresta. Essas características foram depois drasticamente modificadas pela vida de caçador em campo aberto. Em­bora isso já fosse suficientemente difícil, as coisas não ficaram por aqui, visto que teve de se adaptar em seguida ao rápido desenvolvimento de uma certa estrutura social progressivamen­te complexa e culturalmente organizada.

A primeira transformação, de comedor de fruta sexual em caçador sexual, demorou muito tempo e teve um êxito rela­tivo. A segunda mudança não foi tão bem sucedida. Além de muito mais rápida, obedeceu mais à inteligência e às proibi­ções impostas do que a alterações biológicas resultantes da seleção natural. Pode-se mesmo dizer que o comportamento sexual moderno foi menos influenciado pelo progresso da civi­lização do que esta foi influenciada pelo comportamento se­xual. Se a afirmação parece discutível, deixem-me explicá-la até o fim do capítulo.

Devemos começar por averiguar exatamente como se com­porta o macaco pelado atual quando movido pelo sexo. A coi­sa não é tão simples como parece, porque há enorme variabilidade, tanto entre as diferentes sociedades como no seio de cada uma delas. A única solução é colher os resultados mé­dios obtidos em amostras representativas das sociedades mais florescentes. As sociedades pequenas, atrasadas e mal sucedi­das podem ser em grande parte desprezadas. Talvez tenham hábitos sexuais fascinantes e bizarros, mas, em termos bioló­gicos, não representam a principal corrente evolutiva. Pode até acontecer que os seus hábitos sexuais pouco comuns tenham contribuído para a respectiva falência biológica como grupos sociais.

A maioria das informações pormenorizadas que possuí­mos provém de vários estudos recentes escrupulosamente coligidos nos Estados Unidos e baseados em grande parte nos hábitos daquele país. Trata-se, felizmente, de uma cultura biologicamente muito rica e próspera, que pode considerar-se representativa do macaco pelado moderno, sem receio de más interpretações.

O comportamento sexual atravessa, na nossa espécie, três fases características: formação de pares, atividade pré-copulatória e cópula, que seguem geralmente, mas não necessaria­mente, essa ordem. A fase de formação de pares, chamada vulgarmente namoro, é consideravelmente longa em termos zoológicos, visto durar semanas ou mesmo meses. Como su­cede em muitas outras espécies, essa fase caracteriza-se por um comportamento experimental ambivalente, que depende de conflitos entre o medo, a agressão e a atração sexual. O nervosismo e a agitação reduzem-se se as manifestações se­xuais mútuas forem suficientemente fortes. Estas compreendem complexas expressões faciais, posturas do corpo e vocalizações. As últimas constituem os sinais sonoros da fala, altamente especializados e simbólicos, mas que oferecem à pessoa do ou­tro sexo um tom de vocalização distinto, o que também tem muita importância. É freqüente dizer que um par de namo­rados murmura doces tolices e esta frase mostra que o sig­nificado do tom de voz é mais importante do que aquilo que se diz.

Depois das fases iniciais de exibição visual e vocal, ini­ciam-se contatos corporais simples. Estes acompanham-se ge­ralmente de locomoção, que hoje aumenta consideravelmente quando o par está junto. Os contatos entre mãos e entre bra­ços são seguidos de contatos boca-face e boca-boca. Dão-se beijos mútuos, tanto parados como andando. Registram-se vulgarmente acessos de correria, de perseguição, de saltos e de dança, podendo reaparecerem manifestações de brincadeiras infantis.

Uma grande parte dessa fase de formação de pares pode desenrolar-se em público, mas quando se passa para a fase pré-copulatória procura-se um ambiente privado e as manifes­tações de comportamento que se seguem são realizadas o mais longe possível dos outros membros da espécie. Na fase pré-copulatória tende-se manifestamente para a posição horizontal. Os contatos corpo-corpo aumentam tanto em força quanto em duração. As posturas lado-lado de pequena intensidade repe­tem-se tanto, que originam contatos face-face muito intensos. Essas posições podem manter-se vários minutos ou mesmo ho­ras, durante as quais as manifestações visuais e vocais se tornam gradativamente menos importantes, enquanto as manifesta­ções táteis são cada vez mais freqüentes. Estas incluem peque­nos movimentos e pressões variáveis de todas as partes do corpo, mas particularmente dos dedos, mãos, lábios e língua. As roupas são parcial ou totalmente eliminadas e a estimulação tátil pele-pele alarga-se a uma região tão extensa quanto pos­sível.

Os contatos boca-boca atingem freqüência e duração má­ximas durante essa fase e a pressão exercida pelos lábios pode variar desde a extrema suavidade à extrema violência. No decurso das respostas muito intensas, os lábios abrem-se e a língua penetra na boca do companheiro. Surgem então mo­vimentos ativos da língua, para estimular a mucosa sensitiva do interior da boca. Os lábios e a língua vão também tocar muitas outras regiões do corpo do companheiro, especialmente os lobos das orelhas, o pescoço e os órgãos genitais. O ma­cho dá atenção especial às mamas e mamilos da fêmea e os contatos dos lábios e da língua nessa região assumem formas mais elaboradas. O mesmo tipo de ação pode atingir os órgãos sexuais, depois que estes são tocados. Quando isso acontece, o macho concentra-se sobretudo no clitóris da fêmea e esta no pênis do macho, embora em ambos os casos sejam também envolvidas outras regiões.

Além de beijar, a boca pode também morder várias regiões do corpo do companheiro com intensidade variável. Não passam geralmente de dentadas ligeiras, mas às vezes as mordeduras são fortes e dolorosas.

Os acessos de estimulação oral do corpo do companheiro in­tercalam-se e/ou acompanham-se de variadas manipulações da pele. As mãos e os dedos exploram toda a superfície do cor­po, concentrando-se especialmente na face e, com maior inten­sidade, nas nádegas e região genital. Como sucede com os contatos orais, o macho presta atenção particular às mamas e mamilos da fêmea. Seja em que região for, os dedos apal­pam e acariciam repetidamente. De vez em quando agarram-se com muita força e as unhas das mãos podem arranhar a pele e penetrar bastante fundo. A fêmea pode agarrar o pênis do macho, ou agitá-lo ritmicamente, imitando os movimentos da cópula, e o macho pode estimular da mesma forma os órgãos genitais da fêmea, especialmente o clitóris, também muitas vezes, com movimentos rítmicos.

Além desses contatos de boca, mãos e corpo, há ainda ten­dência, durante a atividade pré-copulatória mais intensa, para esfregar ritmicamente os órgãos genitais contra o corpo do companheiro. Existe igualmente bastante entrelaçamento de pernas e braços, às vezes com fortes contrações musculares, de forma que os corpos se unem intensamente, para depois se relaxarem.

Esses são pois os estímulos sexuais dirigidos ao companheiro durante os períodos de atividade pré-copulatória, os quais produzem excitação fisiológica suficiente para que se dê a cópula. Esta começa pela introdução do pênis do macho na vagina da fêmea. Em regra, o ato se realiza com os dois com­panheiros virados um para o outro, o macho sobre a fêmea, ambos em posição horizontal, a fêmea com as pernas afas­tadas. Como veremos adiante, há muitas variantes dessa po­sição, mas a que descrevemos é a mais simples e a mais típica. O macho inicia então uma série de movimentos pélvicos, os quais podem variar de força e rapidez, mas que, quando não há inibições, costumam ser bastante rápidos e profundamente penetrantes. À medida que a cópula prossegue, há tendência para diminuir os contatos orais e manuais, ou, pelo menos, para os simplificar. No entanto, essas formas de estimulação mútua, que são agora secundárias, não se interrompem por completo durante praticamente toda a seqüência da cópula.

A fase copulatória é tipicamente muito mais curta que a fase pré-copulatória. Na maioria dos casos, o macaco atinge em poucos minutos a ejaculação culminante de esperma, a não ser que empregue deliberadamente táticas retardatárias. As outras fêmeas primatas não parecem atingir orgasmo sexual, mas a macaca pelada é única nesse aspecto. Se o macaco prolonga a cópula, a fêmea também pode acabar por atingir um momento culminante, experimentando um orgasmo explo­sivo, tão violento e aliviante como o do macho, ao qual se assemelha fisiologicamente em todos os aspectos, com a óbvia exceção da ejaculação de esperma. Algumas fêmeas podem atingir muito .rapidamente esse momento, outras nunca o atin­gem, mas a maioria atinge-o entre dez e vinte minutos após o início da cópula.

É estranho que exista tal discrepância entre macho e fê­mea quanto ao tempo que demoram para atingir o auge sexual e o alívio da tensão. Discutiremos essa questão mais pormenorizadamente quando encararmos o significado fun­cional dos vários tipos de comportamento sexual. Basta agora dizer que o macho é capaz de superar o fator tempo e pro­vocar o orgasmo da fêmea, quer prolongando e intensifi­cando a estimulação pré-copulatória de forma que ela já esteja muito excitada antes da introdução do pênis, quer uti­lizando táticas auto-inibidoras durante a cópula de forma a atrasar o seu próprio orgasmo, quer continuando a cópula imediatamente após a ejaculação e antes de perder a ereção, quer, ainda, descansando um pouco e copulando depois uma segunda vez. No último caso, o seu desejo sexual reduzido retardará automaticamente o orgasmo, de forma que a fêmea terá dessa vez tempo suficiente para atingir o dela.

Depois de ambos os companheiros terem experimentado o orgasmo, segue-se em regra um período bastante longo de esgotamento, relaxamento, repouso e muitas vezes sono.

Vamos agora passar dos estímulos sexuais para as respostas a esses estímulos. Como reage o corpo a toda essa intensa estimulação? Em ambos os sexos se verifica aumento mar­cado do número de pulsações, da pressão arterial e da respi­ração. Essas alterações começam durante as atividades pré-copulatórias e atingem o máximo durante o orgasmo. As pulsações, normalmente entre setenta e oitenta por minuto, passam a noventa e cem durante as primeiras fases de excitação sexual, sobem a cento e trinta quando esta é mais intensa e atingem a cento e cinqüenta no momento do orgasmo. A pressão arterial parte de cerca de doze e chega a vinte ou mesmo vinte e cinco quando surge o orgasmo. A respi­ração torna-se mais profunda e mais rápida à medida que a excitação aumenta e quando o orgasmo se aproxima torna-se arfante e muitas vezes acompanhada de gemidos e grunhidos rítmicos. No momento do orgasmo, a face pode estar contorcida, com a boca muito aberta e as narinas dilatadas, como acontece num atleta atingindo o limite do esforço, ou em alguém com falta de ar.

Outra alteração importante verificada durante a fase de excitação sexual é um desvio dramático na distribuição do sangue, que passa das regiões mais profundas para as partes do corpo mais superficiais. Esse aumento generalizado de sangue na pele produz vários efeitos impressionantes. Há não só um aumento da temperatura cutânea que se percebe por palpação — ardor ou fogo sexual —, mas também várias alterações específicas em diversas áreas especializadas. Quan­do a excitação atinge grande intensidade, aparece o caracte­rístico rubor sexual. Este vê-se principalmente na fêmea, onde em regra começa pela pele que cobre o estômago e o abdome superior, espalhando-se depois à parte superior das mamas. A face e o pescoço podem ser igualmente atingidos. Nas fêmeas que respondem muito intensamente, o rubor pode ainda estender-se ao abdome inferior, aos ombros, aos coto­velos e, na altura do orgasmo, às coxas, nádegas e costas. Em certos casos, pode mesmo cobrir quase toda a superfície do corpo, fenômeno que chegou a ser descrito como uma erupção semelhante ao sarampo e interpretado como sinal sexual visual. Mais raramente, pode também aparecer no macho, começando igualmente pelo abdome superior, espa­lhando-se pelo peito e depois pelo pescoço e face, e, ocasio­nalmente, pelos ombros, antebraços e coxas. Depois de se atingir o orgasmo, o rubor sexual desaparece rapidamente, seguindo ordem inversa àquela pela qual apareceu.

Além do rubor sexual e da vasodilatação generalizada, há também marcada congestão vascular de vários órgãos exten­síveis. Essa congestão sangüínea produz-se porque as artérias injetam sangue nesses órgãos com uma rapidez maior do que aquela com que as veias o removem. A situação pode man­ter-se durante bastante tempo, porque a própria acumulação de sangue nos órgãos contribui para comprimir as veias que tentam esvaziá-lo. Isso acontece nos lábios, no nariz, nos lobos das orelhas, nos mamilos e nos órgãos genitais de ambos os sexos e também nas mamas da fêmea. Os lábios incham, tor­nando-se mais vermelhos e salientes do que normalmente. As partes moles do nariz também se tumefazem e as narinas dilatam-se. Os lobos das orelhas igualmente se espessam e incham. Os mamilos tornam-se maiores e eretos em ambos os sexos, sobretudo nas fêmeas. (Isso não resulta apenas da congestão vascular, mas também da contração dos mús­culos dos mamilos.) O mamilo da fêmea chega a aumentar um centímetro em comprimento e meio centímetro em diâ­metro. A região areolar de pele pigmentada que rodeia o mamilo também incha e fica mais escura na fêmea, mas não no macho. As mamas da fêmea aumentam outrossim consi­deravelmente de volume. Quando a fêmea atinge o orgasmo, a mama costuma aumentar cerca de 25% em relação às di­mensões normais. Torna-se mais rija, mais arredondada e mais saliente.

Os órgãos genitais dos dois sexos modificam-se bastante quando excitados. As paredes da vagina da fêmea congestio­nam-se uniformemente, provocando lubrificação do tubo vaginal. Em alguns casos, isso pode acontecer alguns segundos após o início da atividade pré-copulatória. Há igualmente alongamento e distensão dos dois terços internos do tubo vaginal, de modo que o comprimento total da vagina chega a atingir dez centímetros na fase de maior excitação sexual. Antes do orgasmo, o terço externo do tubo vaginal incha, e durante o orgasmo há contração espasmódica dos músculos dessa região, que dura de dois a quatro segundos, seguida de contrações rítmicas com intervalos de oito décimos de se­gundo. Em cada orgasmo, dão-se- entre três e quinze dessas contrações rítmicas.

Durante a excitação, os órgãos genitais externos da fêmea incham consideravelmente. Os grandes lábios abrem-se e dila­tam-se, podendo atingir duas ou três vezes o volume normal. Os pequenos lábios internos também se distendem, chegando a ter diâmetro duas ou três vezes superior ao normal, apro­ximando-se da parede dos grandes lábios, acrescentando um centímetro adicional ao comprimento total da vagina. À me­dida que a excitação aumenta, os pequenos lábios tornam-se congestionados e salientes, mudam de cor e ficam vermelhos, muito vivos.

O clitóris (que corresponde na fêmea ao pênis do macho) também se dilata e torna mais saliente quando a excitação começa, mas, à medida que esta aumenta, deixa de se ver, escondido pela dilatação labial. Nessa fase avançada, o clitóris não pode ser diretamente estimulado pelo pênis do macho, mas, como se mantém inchado e sensível, continua a ser esti­mulado, indiretamente, pelas pressões rítmicas exercidas nessa região pelos movimentos do macho.

O pênis do macho modifica-se espetacularmente com a exci­tação sexual. Passa de um estado mole e flácido a um estado dilatado, rígido e ereto, devido à intensa congestão vascular. O seu comprimento habitual, de nove centímetros e meio, aumenta sete ou oito centímetros. O diâmetro também aumen­ta consideravelmente, de modo que a ereção dos macacos pelados origina um pênis maior do que o de qualquer outra espécie de primatas atuais.

Na ocasião do orgasmo sexual do macho há várias pode­rosas contrações musculares do pênis, que expulsam o líquido seminal para o tubo vaginal. As primeiras contrações são as mais fortes e sucedem-se a intervalos de oito décimos de segundo — ritmo semelhante ao das contrações vaginais da fêmea.

Durante a excitação, a pele do escroto do macho con­trai-se, ao mesmo tempo que se reduz a mobilidade dos testí­culos. Estes elevam-se devido ao encurtamento dos cordões espermáticos (como também sucede em caso de frio, medo ou cólera) e são mantidos firmemente contra o corpo. A con­gestão vascular dessa região produz um aumento do tamanho dos testículos que atinge 50% ou mesmo 100%.

Acabamos de ver as principais modificações que ocorrem nos corpos do macho e da fêmea durante a atividade sexual. Após o orgasmo, essas alterações se esfumam rapidamente e o indivíduo volta depressa ao estado fisiológico de tranqüili­dade normal. Vale a pena referir à resposta final que se segue ao orgasmo. Tanto o macho como a fêmea podem transpirar abundantemente logo a seguir ao orgasmo, independentemente do grau de esforço físico despendido nas precedentes ativi­dades sexuais. Contudo, embora isso não dependa do desgaste físico total, também não se relaciona com a intensidade do próprio orgasmo. A camada de suor aparece nas costas, nas coxas e na parte superior do peito. Pode escorrer suor das axilas. Nos casos intensos, a sudação pode estender-se a todo o tronco, desde os ombros às coxas. As palmas das mãos e as plantas dos pés também transpiram e, nos casos em que a face desenvolveu rubor sexual, pode haver transpiração na testa e no lábio superior.

Este curto resumo dos estímulos sexuais na nossa espécie e das respostas correspondentes pode servir-nos agora como base da discussão sobre o significado do nosso comportamento sexual em relação aos nossos antepassados e ao nosso modo de vida geral. Antes disso, vale a pena salientar que os vários estímulos e respostas mencionados não ocorrem todos com a mesma freqüência. Embora alguns surjam obrigatoriamente sempre que um macho e uma fêmea se reúnem para exercer atividade sexual, outros fenômenos só ocorrem em certo nú­mero de casos. Mesmo assim, a respectiva freqüência é ainda suficientemente elevada para serem considerados "caracte­rísticos da espécie". O rubor sexual ocorre em 75% das fê­meas e em cerca de 25% dos machos. A ereção dos mamilos é constante nas fêmeas e observa-se em 60% dos machos. A sudação intensa após o orgasmo verifica-se em 33% dos animais de ambos os sexos. Fora esses casos específicos, a maioria das outras respostas citadas aplica-se a todos os casos, embora variem evidentemente de intensidade e duração de acordo com as circunstâncias.

Outro aspecto que se deve esclarecer é a distribuição das atividades sexuais no decurso da vida de um indivíduo. Du­rante a primeira década de vida, não pode haver verdadeira atividade sexual em qualquer dos sexos. Entre as crianças mais pequenas podem ser observadas muitas das chamadas "brincadeiras sexuais", mas é evidente que não há comporta­mento sexual funcional antes que a fêmea comece a ovular e o macho a ejacular. Algumas fêmeas começam a ter menstruação aos dez anos de idade, e por volta dos catorze anos 80% das fêmeas têm menstruações ativas. Aos dezenove anos, todas as fêmeas são menstruadas. O crescimento de pêlos púbicos, o alargamento das ancas e o crescimento das mamas acompanham e precedem mesmo essa fase. O crescimento geral do corpo segue ritmo mais lento e não se completa antes dos vinte e dois anos.

Nos machos, a primeira ejaculação não surge geralmente antes dos onze anos, pelo que eles começam a vida sexual um pouco mais tarde do que as fêmeas. (A ejaculação mais pre­coce que se conhece ocorreu num rapaz de oito anos, mas isso é absolutamente excepcional.) Aos doze anos, 25% dos machos já tiveram a primeira ejaculação, e, aos catorze, 18%. (Nessa idade, os rapazes já estão a par das mulheres.) A idade média da primeira ejaculação é treze anos e dez meses. Tal como nas fêmeas, existem outras características que acom­panham o desenvolvimento