Principais obras de W. Shakespeare (*) (Monumentum aëre perennius)
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Título |
Ano |
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Péricles, príncipe de Tiro |
1590 |
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Henrique VI (1, 2, e 3ª partes) |
1590-1 |
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A comédia dos erros |
1592 |
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Trabalhos de amor perdidos |
1592 |
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O rei Ricardo II |
1593 |
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A tragédia do rei Ricardo III |
1593 |
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A megera Domada |
1596 |
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A tragédia de Romeu e Julieta |
1596 |
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O Mercador de Veneza |
1597 |
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O Rei Henrique IV (1 e 2ª parte) |
1597-8 |
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A vida e a morte do rei João |
1598 |
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A vida do rei Henrique V |
1599 |
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Muito ruído por nada |
1600 |
Hamlet, príncipe da Dinamarca |
1600 |
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As alegres comadres de Windsor |
1601 |
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Troilo e Créssida |
1602 |
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O Rei Henrique VIII |
1603 |
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Medida por medida |
1603 |
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Otelo, o mouro de Veneza |
1604 |
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O Rei Lear |
1605 |
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A Tragédia de Macbeth |
1606 |
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Júlio César |
1607 |
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Antônio e Cleópatra |
1608 |
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Coriolano |
1610 |
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Timão de Atenas |
1610 |
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A Tempestade |
1612 |
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(*) Shakespeare começou escrevendo aos 26 anos e parou aos 48 quando se retirou para Straford-on--Avon ao aposentar-se. No total foram 36 peças entre tragédias, dramas, comédias e peças tragicômicas. Também foi autor de uma série de poemas e sonetos, sendo que o primeiro deles foi Vênus e Adonis, aparecido em 1593. Quem organizou a primeira lista da suas obras foi o mestre-escola Francis Meris na sua "Palladis Tamisa", de 1598. |
O MERCADOR DE VENEZA
(The Merchant of Venice)
PERSONAGENS
O DOGE DE VENEZA.
O PRÍNCIPE DE MARROCOS, pretendente de Pórcia.
O PRÍNCIPE DE ARAGÂO, pretendente de Pórcia.
ANTÔNIO, um mercador de Veneza.
BASSÂNIO, seu amigo.
GRACIANO, amigo de Antônio e de Bassânio.
SALÂNIO, amigo de Antônio e de Bassânio.
SALARINO, amigo de Antônio e de Bassânio.
LOURENÇO, apaixonado de Jessica.
SHYLOCK, um judeu rico.
TUBAL, um judeu, seu amigo.
LANCELOTO GOBBO, criado de Shylock.
O VELHO GOBBO, pai de Lanceloto.
LEONARDO, criado de Bassânio.
BALTASAR, criado de Pórcia.
ESTÉFANO, criado de Pórcia.
PÓRCIA, rica herdeira.
NERISSA, sua dama de companhia.
JESSICA, filha de Shylock.
Senadores de Veneza, oficiais da Corte de Justiça, um carcereiro, criados de Pórcia e outros servidores.
ATO I
Cena I
Veneza. Uma rua. Entram Antônio. Salarino e Salânio.
ANTÔNIO — Não sei, realmente, porque estou tão triste. Isso me enfara; e a vós também, dissestes. Mas como começou essa tristeza, de que modo a adquiri, como me veio, onde nasceu, de que matéria é feita, ainda estou por saber. E de tal modo obtuso ela me deixa, que mui dificilmente me conheço.
SALARINO — Vosso espírito voga em pleno oceano, onde vossos galeões de altivas velas – como burgueses ricos e senhores das ondas, ou qual vista aparatosa distendida no mar – olham por cima da multidão de humildes traficantes que os saúdam, modestos, inclinando-se, quando perpassam com tecidas asas.
SALÂNIO — Podeis crer-me, senhor: caso eu tivesse tanta carga no mar, a maior parte de minhas afeições navegaria com minhas esperanças. A toda hora folhinhas arrancara de erva, para ver de onde sopra o vento; debruçado nos mapas, sempre, procurara portos, embarcadouros, rotas, sendo certo que me deixara louco tudo quanto me fizesse apreensivo pela sorte do meu carregamento.
SALARINO — Meu hálito, que a sopa deixa fria, produzir-me-ia febre, ao pensamento dos desastres que um vento muito forte pode causar no mar. Não poderia ver correr a ampulheta, sem que à idéia me viessem logo bancos e mais bancos de areia e mil baixios, inclinado vendo o meu rico "André" numa coroa, mais fundo o topo do que os próprios flancos, para beijar a tumba; não iria à igreja sem que a vista do edifício majestoso de pedra me fizesse logo lembrado de aguçadas rochas, que, a um simples toque no meu gentil barco, dispersariam pelas ondas bravas suas especiarias, revestindo com minhas sedas as selvagens ondas. Em resumo: até há pouco tão valioso tudo isso; agora, sem valia alguma. Pensamento terei para sobre essa conjuntura pensar, e tivesse tanta carga no mar, a maior parte de minhas afeições navegaria com minhas esperanças. A toda hora folhinhas arrancara de erva, para ver de onde sopra o vento; debruçado nos mapas, sempre, procurara portos, embarcadouros, rotas, sendo certo que me deixara louco tudo quanto me fizesse apreensivo pela sorte do meu carregamento.
SALARINO — Meu hálito, que a sopa deixa fria, produzir-me-ia febre, ao pensamento dos desastres que um vento muito forte pode causar no mar. Não poderia ver correr a ampulheta, sem que à idéia me viessem logo bancos e mais bancos de areia e mil baixios, inclinado vendo o meu rico "André" numa coroa, mais fundo o topo do que os próprios flancos, para beijar a tumba; não iria à igreja sem que a vista do edifício majestoso de pedra me fizesse logo lembrado de aguçadas rochas, que, a um simples toque no meu gentil barco, dispersariam pelas ondas bravas suas especiarias, revestindo com minhas sedas as selvagens ondas. Em resumo: até há pouco tão valioso tudo isso; agora, sem valia alguma. Pensamento terei para sobre essa conjuntura pensar, e há de faltar-me pensamento no que respeita à idéia de que tal coisa me faria triste? Mas não precisareis dizer-me nada: sei que Antônio está triste só de tanto pensar em suas cargas.
ANTÔNIO — Podeis crer-me, não é assim. Sou grato à minha sorte; mas não confio nunca os meus haveres a um só lugar e a um barco, simplesmente nem depende o que tenho dos azares do corrente ano, apenas. Não me deixam triste, por conseguinte, as minhas cargas.
SALARINO — Então estais amando.
ANTÔNIO — Ora! Que idéia!
SALARINO — Não é paixão, também? Então digamos que triste estais por não estardes ledo, e que saltar e rir vos fora fácil e acrescentar, depois, que estais alegre porque triste não estais. Pelo deus Jano de dupla face, a natureza, agora, confecciona uns sujeitos bem curiosos: uns, de olhos apertados, riem como papagaio trepado numa gaita de foles; outros andam com tal cara de vinagre, que nunca os dentes mostram à guisa de sorriso, muito embora Nestor jurasse que a pilhéria é boa.
(Entram Bassânio, Lourenço e Graciano.)
SALÂNIO — Eis que vem vindo aí Bassânio, vosso muito nobre parente, acompanhado de Lourenço e Graciano. Passai bem, que em melhor companhia vos deixamos.
SALARINO — Ficaria convosco até deixar-vos mais disposto, se amigos muito dignos não me solicitassem neste instante.
ANTÔNIO — Sei apreciar em tudo vossos méritos. Os negócios vos chamam, estou certo, e o ensejo aproveitais para deixar-nos.
SALARINO — Bom dia, caros lordes.
BASSÂNIO — Quando riremos outra vez, senhores? Dizei-nos: quando? Quase vos tornastes estranhos para nós. É concebível semelhante atitude?
SALARINO — Nossas folgas irão ficar só ao dispor das vossas. (Saem Salarino e Salânio.)
LOURENÇO — Caro senhor Bassânio, já que achastes Antônio, vos deixamos. Mas mui gratos vos ficaremos, se hoje à noite, à ceia, vos lembrardes do ponto em que devemos encontrar-nos de novo.
BASSÂNIO — Combinado.
GRACIANO — Signior Antônio, pareceis doente. Preocupai-vos demais com este mundo. Perda de vulto é tudo o que nos custa tantos cuidados. Podeis dar-me crédito: mudastes por maneira extraordinária.
ANTÔNIO — O mundo, para mim, é o mundo, apenas, Graciano: um palco em que representamos, todos nós, um papel, sendo o meu triste.
GRACIANO — O de bobo farei. Que entre folguedos e risadas as velhas rugas cheguem. Prefiro o fígado aquecer com vinho, a esfriar o peito com gemidos lúgubres. Se o sangue temos quente, por que causa deveremos ficar imóveis como nossos antepassados de alabastro? dormir de pé, ficar com icterícia só de não fazer nada? Escuta, Antônio – dedico-te afeição; ela é que fala – pessoas há, cuja fisionomia se enruga e enturva como uma lagoa parada, e que a toda hora se retraem num silêncio obstinado, só com o fito de aparência envergarem de profunda sabedoria, gravidade e senso, como quem diz: "Eu sou o senhor Oráculo; quando eu falar, nenhum cachorro ladre!" Conheço, caro Antônio muita gente que é tida como sábia, tão-somente por não dizerem nada, quando é certo que, se a falar chegassem, os ouvintes condenariam, por levá-los, logo, a dar o nome, ao próximo, de tolos. De outra vez falaremos mais sobre isso. Mas com isca assim triste não me pesques semelhante opinião, pois como engodo, só serve para os tolos. Vem, bondoso Lourenço. Por enquanto, passai bem. Depois da ceia acabarei a prédica.
LOURENÇO — Muito bem; até à ceia vos deixamos, Vou fazer o papel de sábio mudo, porque falar Graciano não me deixa.
GRACIANO — Para ao meu lado apenas mais dois anos, que a própria voz há de ficar-te estranha.
ANTÔNIO — Adeus; para alcançar esse objetivo vou ficar falador.
GRACIANO — Sim; que o silêncio só é virtude em língua defumada ou em virgem que não quer ser conquistada. (Saem Graciano e Lourenço.)
ANTÔNIO — Que sentido há em tudo isso?
BASSÂNIO — Graciano fala sempre uma infinidade de nadas, como ninguém em Venneza. Suas idéias razoáveis são como dois grãos de trigo perdidos em dois alqueires de palha: gastais um dia inteiro para encontrá-los; mas, uma vez achados, não compensam o trabalho.
ANTÔNIO — Dizei-me agora o nome da donzela a que jurastes ir secretamente em peregrinação, de que devíeis falar-me hoje, segundo o prometestes.
BASSÂNIO — Não ignoras, Antônio, até que ponto dissipei meus haveres, pretendendo sustentar um estilo mais custoso de vida do que minhas fracas rendas podiam comportar. Presentemente não me pesa abrir mão desse alto estilo. Consiste todo o meu cuidado apenas em liquidar airosamente as dívidas em que me enleou a vida um tanto pródiga. Convosco, Antônio, tenho o maior débito, de amizade e dinheiro, assegurando-me vossa amizade o mais propício meio de aliviar-me dos planos e projetos de como ficar livre dessas dívidas.
ANTÔNIO — Confiai-me, bom Bassânio, esses projetos, que, se estiverdes ainda, como sempre, sob a mirada da honra, ficai certo de que minha pessoa, a
bolsa, todos os meus recursos ficarão patentes à vossa precisão.
BASSÂNIO — Quando menino de escola, se eu perdia alguma flecha, costumava lançar outra em seguida, para achar a primeira. Assim, as duas arriscando, acabava, muitas vezes, por ambas encontrar. Se menção faço desse jogo infantil, é porque tudo quanto se segue é de inocência pura. Já me emprestastes muito, e, como jovem estúrdio, perdi tudo o que vos devo. Mas se quisésseis mandar outra flecha na direção daquela, não duvido que, atento à meta, encontrarei as duas, ou, quando menos, a última devolvo, ficando a vos dever apenas uma.
ANTÔNIO — Conheceis-me mui bem; por isso mesmo perdeis tempo apelando desse modo para a minha afeição. Além de tudo, pondo em dúvida o meu devotamento, muito mais me ofendeis do que se houvésseis malbaratado tudo o que possuo. Basta dizerdes-me o que é necessário que eu faça, o que julgardes que só pode ser por mim realizado, e eis-me disposto para tudo fazer. Falai, portanto.
BASSÂNIO — Em Belmonte há uma jovem que de pouco recebeu grande herança. É muito linda e, mais do que esse termo, de virtudes admiráveis. Outrora eu recebi de seus olhos mensagens inefáveis. Chama-se Pórcia, inferior em nada à filha de Catão, Pórcia de Bruto. Não lhe ignora o valor o vasto mundo. pois pelos quatro ventos lhe têm vindo de toda parte muitos pretendentes de fama sublimada. Como velo de ouro o solar cabelo lhe orna a fronte, o que transforma a sede de Belmonte em uma nova Cólquida, empenhando-se muitos Jasões no afã de conquistá-la. Ó meu Antônio! Se eu possuísse meios para poder apresentar-me como pretendente também, não me restara, diz-me o pressentimento, a menor dúvida de que eu viria a ser o felizardo.
ANTÔNIO — Sabes que está no mar quanto possuo. Dinheiro ora não tenho, nem disponho, nesta ocasião, de nada com que possa levantar qualquer soma. Sai a campo; põe à prova meu crédito em Veneza. Hei de espichá-lo ao último, contanto que te prepares para que em Belmonte vejas a bela Pórcia. Vai; informa-te por teu lado, como eu, onde há
dinheiro para emprestar. Seria fato inédito nada obtermos agora com meu crédito. (Saem.)
Cena II
Belmonte. Um quarto em casa de Pórcia. Entram Pórcia e Nerissa.
PÓRCIA — Por minha fé, Nerissa, este mundo grande cansa-me o pequeno corpo.
NERISSA — Isso se daria, estimada senhora, se vossos incômodos fossem tão numerosos quanto vossas venturas. Aliás, por tudo quanto vejo, tanto se adoece por comer em excesso como por definhar à míngua. Não é, por conseguinte, ventura despicienda encontrarmo-nos em uma situação mediana. A superfluidade chega mais cedo aos cabelos brancos, mas a modicidade vive mais tempo.
PÓRCIA — Belas sentenças e ótima dicção.
NERISSA — Melhores ainda seriam as sentenças, se fossem postas em prática.
PÓRCIA — Se fazer fosse tão fácil como saber o que se deve fazer bem, as capelas teriam sido igrejas e as choupanas dos pobres, palácios principescos. Bom predicador é o que segue suas próprias instruções. É-me mais fácil ensinar a vinte pessoas como devem comportar-se, do que ser uma das vinte, para seguir a minha própria doutrina. O cérebro pode inventar leis para o sangue, mas os temperamentos ardentes saltam por cima de um decreto frio. A senhorita loucura é uma lebre que pula por sobre a rede do bom conselho, o coxo. Mas esse raciocínio é inadequado para ajudar-me na escolha de um marido. Mas, ai de mim! "Escolha" é modo de dizer. Não está em mim nem escolher quem eu desejara, nem recusar quem me desagradar. Desse modo, dobra-se a vontade de uma filha viva ante a de um pai morto. Não é duro, Nerissa, não podermos escolher nem recusar ninguém?
NERISSA — Vosso pai foi sempre virtuoso, e as pessoas assim pias ao morrerem têm inspirações felizes. Por isso, a loteria concebida por ele, dos três cofres, de ouro, prata e chumbo, com a afirmativa de que quem escolhesse segundo o seu modo de pensar vos escolheria também, sem dúvida alguma só poderá ser ganha por quem vos ame verdadeiramente. Mas a que ponto vos sentis inclinada para qualquer dos pretendentes principescos que já se fizeram anunciar?
PÓRCIA — Enumera-mos, por obséquio, que os descreverei, à medida que os nomeares. Da descrição que eu fizer, deduzirás o grau de minha inclinação.
NERISSA — Primeiro, temos o príncipe napolitano.
PÓRCIA — Oh! Não passa de um potro xucro, porque toda sua conversa só gira em torno de cavalos, considerando ele especial atributo de suas boas qualidades saber ele mesmo ferrá-los. Receio muito que a senhora mãe dele haja prevaricado com algum ferreiro.
NERISSA — Depois, temos o conde palatino.
PÓRCIA — Esse anda sempre de sobrecenho fechado, como se estivesse a dizer: "Se não me quiserdes escolher, decidi logo". Ouve histórias alegres sem sorrir; receio que, ao envelhecer, se torne filósofo chorão, já que na mocidade revela tão selvagem sisudez. Prefiro desposar uma caveira com um osso na boca a escolher um qualquer desses pretendentes. Deus me defenda de ambos.
NERISSA — E que dizeis do senhor francês, Monsieur Le Bon?
PÓRCIA — Foi Deus que o fez; por isso, que passe por criatura humana. Em verdade, sei perfeitamente que é pecado zombar. Mas esse! Possui um cavalo melhor do que o do napolitano, sendo o seu mau hábito de franzir o sobrolho mais suportável do que o do conde palatino. É todo o mundo e ninguém. Se um tordo canta, põe-se a fazer cabriolas; se casar com ele, casarei com vinte maridos. Se ele me desprezar, perdoar-lhe-ei, porque ainda que me amasse até à loucura, jamais poderia retribuir-lhe o amor.
NERISSA — Que dizeis, então, de Falconbridge, o jovem barão da Inglaterra?
PÓRCIA — Bem sabeis que dele nada posso dizer, porque nem ele me compreende, nem eu a ele. Não fala nem latim, nem francês, nem italiano, assim como podeis prestar juramento no Tribunal de Justiça em como não possuo um só real da língua inglesa. É um belo retrato de homem; mas quem
poderá conversar com uma figura de pantomima? E que maneira extravagante de vestir-se! Suspeito que comprou o gibão na Itália, os calções largos na França, o gorro na Alemanha e suas maneiras em toda parte.
NERISSA — Que pensais do senhor escocês, seu vizinho?
PÓRCIA — Que revela qualidade vizinhesca, pois recebeu emprestada do inglês uma bofetada, tendo jurado que a pagará quando puder. Creio que o francês foi o seu fiador, que subscreveu mais uma bofetada.
NERISSA — Como vos parece o jovem alemão, sobrinho do Duque de Saxônia?
PÓRCIA — Repelente pela manhã, quando ainda não está bêbedo, e repelentíssimo à tarde, depois do pifão quotidiano. No seu melhor estado é pouco pior do que homem; no pior, pouco melhor do que animal. Por pior que me possa acontecer, ainda espero poder livrar-me dele.
NERISSA — Se ele se decidir a escolher e escolher o cofre bom, desobedecereis à vontade de vosso pai, no caso de vos recusardes a aceitá-lo.
PÓRCIA — Por isso, de medo do pior, peço-te que coloques sobre um dos cofres em branco um copo bem cheio de vinho do Reno. Porque ainda que o diabo estivesse dentro desse cofre, estando fora a tentação, ele escolherá esse mesmo. Tudo, Nerissa, menos casar-me com uma esponja.
NERISSA — Não precisais ter medo, senhorita, de que possais vir a casar com qualquer desses pretendentes, pois todos eles me comunicaram a determinação de voltar para casa, cessando de vos importunar com vos fazerem a corte, a menos que pudésseis ser conquistada por outro meio que não o da imposição de vosso pai, com relação aos cofres.
PÓRCIA — Ainda que eu chegue a ficar tão velha quanto Sibila, morrerei tão casta como Diana, no caso de não ser conquistada segundo as condições estipuladas por meu pai. Alegra-me saber que esses pretendentes se mostram tão razoáveis, pois não há um só entre eles cuja ausência eu não deseje com todas as veras da alma, pedindo a Deus que lhes conceda uma boa viagem.
NERISSA — Não vos recordais, senhora, no tempo em que vosso pai ainda vivia, de um veneziano, soldado e estudante, que aqui veio em companhia do Marquês de Montferrat?
PÓRCIA — Sim, sim; se não me engano, chamava-se Bassânio.
NERISSA — Isso mesmo, senhora; esse, de todos os homens que estes olhos têm contemplado, é o mais digno de uma bela esposa.
PÓRCIA — Lembro-me perfeitamente dele, assim como me lembro de que é merecedor desse elogio. (Entra um criado.) Então, que há de novo?
CRIADO — Senhora, os quatro estrangeiros vos procuram, para apresentarem suas despedidas, tendo chegado, também, o mensageiro de um quinto, Príncipe de Marrocos, que trouxe a noticia de que o príncipe, seu amo, chegará aqui esta noite.
PÓRCIA — Se eu pudesse apresentar as boas-vindas ao quinto com a mesma disposição com que me despeço dos outros quatro, sua chegada me deixaria alegre. Se ele tiver a compostura de um santo e a cor do diabo, melhor fora que, em vez de desposar-me, me confessasse. Vamos, Nerissa. Segue na frente, maroto. Enquanto fecham o portão a um pretendente, bate outro à porta. (Saem.)
Cena III
Veneza. Uma praça pública. Entram Bassânio e Shylock.
SHYLOCK — Três mil ducados. Bem?
BASSÂNIO — Sim, senhor; por três meses.
SHYLOCK — Por três meses. Bem?
BASSÂNIO — Dos quais, como vos disse, servirá Antônio de fiador.
SHYLOCK — Antônio servirá de fiador. Bem?
BASSÂNIO — Podeis servir-me? Quereis fazer-me esse obséquio? Posso saber vossa resposta?
SHYLOCK — Três mil ducados, por três meses e Antônio como fiador.
BASSÂNIO — Que respondeis a isso?
SHYLOCK — Antônio é um bom homem.
BASSÂNIO — Já ouviste qualquer imputação em contrário?
SHYLOCK — Oh, não, não, não! Quando digo que ele é um bom homem, quero fazer-vos compreender que como fiador é suficiente. Mas seus recursos são hipotéticos. Ele tem um galeão no caminho de Trípoli; outro, no das Índias. Ouvi falar, também, no Rialto, que tem um terceiro de rota para o México, um quarto, para a Inglaterra, bem como outras pacotilhas espalhadas por esse mundo. Mas navios não passam de tábuas, e marinheiros, de homens. Há ratos de terra e ratos de água, ladrões de terra e ladrões de água – quero dizer: piratas – como há os perigos dos ventos, das ondas e das rochas. O homem, não obstante, é suficiente. Três mil ducados; creio que posso aceitar a fiança dele.
BASSÂNIO — Ficai seguro de que o podeis.
SHYLOCK — Ficarei seguro de que o posso e hei de considerar que posso ficar seguro. Posso conversar com Antônio?
BASSÂNIO — Se vos agradar cear conosco.
SHYLOCK — Sim, para sentir o cheiro de porco, para comer da casa de onde vosso profeta, o Nazareno, conjurou o demônio. Poderei comprar e vender convosco, conversar convosco, passear convosco, e assim por diante; mas não comerei convosco, nem beberei convosco, nem rezarei convosco. Que novidades há no Rialto? Quem é que vem chegando aqui? (Entra Antônio.)
BASSÂNIO — É o signior Antônio.
SHYLOCK (à parte) — Como parece o falso publicano! Por ele ser cristão é que o odeio, mas, acima de tudo, porque em sua simplicidade vil, dinheiro empresta gratuitamente e faz baixar a taxa de juros entre nós aqui em Veneza. Se em falta alguma vez puder pegá-lo, saciado deixarei meu antigo ódio. Nossa nação sagrada ele detesta, e, até mesmo no ponto em que costumam reunir-se os mercadores, ele insulta-me, meus negócios condena e o honesto lucro que de interesse chama. Amaldiçoada minha tribo se torne, se o perdoar.
BASSÂNIO — Shylock, estais ouvindo?
SHYLOCK — Considero minhas mercadorias em depósito; mas pelas contas feitas de cabeça, não me será possível mui depressa levantar uma soma tão vultosa: três mil ducados! Mas a que vem isso? Tubal, um rico hebreu de minha tribo, há de me socorrer. Mas, de mansinho! O empréstimo será por quantos meses? (A Antônio.) Meu bom senhor, desejo-vos saúde. Falávamos de Vossa Senhoria.
ANTÔNIO — Shylock, muito embora eu nunca empreste nem emprestado peça, sem que aceite nem pague juro algum, neste momento, para atender à precisão urgente deste amigo, romper resolvo os hábitos. (A Bassânio.) Ele já sabe a quanto monta tudo?
SHYLOCK — Sei, sei! Três mil ducados.
ANTÔNIO — Por três meses.
SHYLOCK — Esquecera-o. Três meses. Já me tínheis dito isso mesmo. Muito bem. Com vossa fiança... Vamos ver... Mas, escutai-me: se não me engano, há pouco declarastes que jamais emprestais nem pedis nada visando lucros.
ANTÔNIO — Nunca fiz tal coisa.
SHYLOCK — Quando Jacó cuidava das ovelhas de seu tio Labão... Esse Jacó era, depois do nosso santo Abraão – por haver trabalhado sabiamente em seu proveito a mãe, sim, sabiamente – o terceiro patriarca. Sim, terceiro.
ANTÔNIO — E a que vem isso? Ele cobrava juros?
SHYLOCK — Não, não cobrava, o que chamais de juros, diretamente. Agora tomai nota de como fez Jacó. Quando ele e o tio assentaram que todos os cordeiros malhados e de rajas ficariam para Jacó, à guisa de salário, as ovelhas em cio foram postas, no fim do outono, junto dos carneiros. E quando entre esses animais velozes o ato da geração se processava, pelou-me algumas varas o astucioso pastor e, ao trabalhar a natureza, frente as pôs das ovelhas voluptuosas que, concebendo então, no tempo próprio só pariram cordeiros variegados, que com Jacó ficaram. Eis um meio de ganhar, e Jacó foi abençoado. Não sendo roubo, todo lucro é bênção.
ANTÔNIO — Ora, senhor, tudo isso é mero acaso, que redundou em lucro de Jacó. Não dependia dele o resultado. É a mão do céu que tudo faz e guia. Mas justifica a história o cobrar juros? Vossa prata e vosso ouro são, acaso, ovelhas e carneiros?
SHYLOCK — Não vos posso dizer ao certo; mas os multiplico com a mesma rapidez. Porém ouvi signior.
ANTÔNIO — Bassânio, observa como o diabo sabe tirar partido da Escritura. Uma alma vil, que cita as coisas santas, é como o biltre de sorriso ameno, ou uma bela maçã podre por dentro. Como é belo o exterior da falsidade!
SHYLOCK — Três mil ducados... Soma bem redonda. Por três meses em doze. Ora vejamos quanto isso vai render.
ANTÔNIO — Então, Shylock, assumimos convosco esse contrato?
SHYLOCK — Signior Antônio, quantas, quantas vezes lá no Rialto fizestes pouco caso do meu dinheiro e de eu viver de juros! Suportei tudo sempre com um paciente encolher de ombros, pois o sofrimento é apanágio de toda a nossa tribo. De tudo me chamáveis: cão, incrédulo. degolador, além de me escarrardes neste gabão judeu, e tudo apenas por eu usar o que me pertencia. Ora bem; mas agora está patente que precisais de mim. Ótimo! Avante! Vindes buscar-me e me dizeis: "Shylock", dizeis-me "precisamos de dinheiro". Vós, que esvaziado havíeis toda a vossa saliva em minha barba e me expulsáveis a ponta-pés, tal qual como faríeis a um cão postado em frente a vossa porta, solicitais dinheiro. Que vos devo responder neste instante? Deveria perguntar-vos: "Cachorro tem dinheiro? Será possível que um cachorro empreste a alguém três mil ducados?" Inclinar-me devo até ao chão e, em tom de voz de escravo. humilde a murmurar, quase sem fôlego, dizer assim: "Na última quarta-feira, caro amigo, cuspistes-me no rosto; noutro dia, chamastes-me de cão; e em troco dessas cortesias, preciso ora emprestar-vos tanto dinheiro assim?"
ANTÔNIO — Ainda agora pudera novamente dar-te o nome de cão, de minha porta tocar-te a ponta-pés, cuspir-te o rosto. Se queres emprestar-nos teu dinheiro, não o faças como a amigos – em que tempo a amizade cobrou do amigo juros de um metal infecundo? – antes o empresta como a teu inimigo, pois no caso de vir ele a faltar com o pagamento, com mais alegre rosto hás de extorquir-lhe tudo o que te dever.
SHYLOCK — Ora essa! Vede como vos exaltais! É meu desejo prestar-vos um obséquio, conquistar-vos a amizade, esquecer-me das injúrias com que me maculastes, suprir vossa necessidade, sem tirar proveito nenhum do meu dinheiro. No entretanto, não me quereis ouvir. E amiga a oferta.
ANTÔNIO — Realmente, muito amiga.
SHYLOCK — Quero dar-vos prova dessa amizade. Acompanhai-me ao notário e assinai-me o documento da dívida, no qual, por brincadeira, declarado será que se no dia tal ou tal, em lugar também sabido. a quantia ou quantias não pagardes, concordais em ceder, por eqüidade, uma libra de vossa bela carne, que do corpo vos há de ser cortada onde bem me aprouver.
ANTÔNIO — Palavra, aceito! Assinarei a dívida e declaro que um judeu pode ser até bondoso.
BASSÂNIO — Jamais assinareis, por minha causa, um documento desses; antes quero continuar a passar necessidade.
ANTÔNIO — Nada temas, amigo, que eu não perco. Daqui a dois meses, isto é, um mês antes de se vencer a letra, espero certo receber nove tantos do que vale.
SHYLOCK — Como são os cristãos, ó pai Abraão! A dureza mui própria os leva sempre a suspeitar do pensamento alheio. Uma coisa dizei-me, por obséquio: se ele não me pagar no dia certo, que lucrarei cobrando-lhe essa pena? Uma libra de carne humana, quando retirada de alguém, não vale tanto nem é tão apreciada quanto carne de vitela, de cabra ou de carneiro. Só para ser-lhe amável é que faço semelhante proposta. Caso a aceite, serei contente. Do contrário, adeus. E, pelo meu amor, não me ultrajeis.
ANTÔNIO — Pois não, Shylock; assinarei a letra.
SHYLOCK — Então dentro de pouco ide encontrar-me em casa do notário. Dai-lhe os dados para aprontar essa jocosa letra, que os ducados vou pôr dentro da bolsa e ver o que há em casa, cuja guarda confiei a um velhaco perdulário. Dentro de pouco lá estarei convosco.
ANTÔNIO — Valoroso judeu, põe pressa nisso. (Sai Shylock.) Esse hebreu ainda acaba convertendo-se. Já se mostra bondoso.
BASSÂNIO — Não confio em frases doces ditas por um biltre.
ANTÔNIO — Não seja o prazo causa de aflição. Um mês antes meus barcos voltarão. (Saem.)
ATO II
Cena I
Belmonte. Um quarto em casa de Pórcia. Toque de cornetas. Entram o Príncipe de Marrocos, com séqüito, Pórcia, Nerissa e outras pessoas.
MARROCOS — Não vos desagradeis de mim por causa de minha compleição, libré sombria do sol ardente, do qual sou vizinho e que me fez crescer. Apresentai-me a mais bela criatura das que vieram à luz no norte, onde o calor de Febo mal o gelo desmancha, porque logo incisões em nós mesmos pratiquemos por vosso amor, a fim de que se veja qual sangue é mais vermelho: o meu ou o dele. Afirmo-vos, senhora, este conspecto já infundiu medo em bravos, e vos juro por meu amor, que as virgens mais famosas de nosso clima amor lhe consagraram. De cor não trocarei, gentil rainha, senão somente para conquistar-vos.
PÓRCIA — As exigências de um olhar de jovem em nada influem nesta minha escolha. Demais, a loteria do destino que me tocou me priva do direito da livre escolha. Mas, se não me houvesse meu pai me restringido e limitado por seu próprio alvedrio, postulando que esposa eu fosse de quem me ganhasse pela maneira dita, ficaríeis frente à minha afeição, famoso príncipe, tão favoravelmente colocado como todos os outros pretendentes.
MARROCOS — Por isso só, vos fico agradecido. Mas, por obséquio, aos cofres conduzi-me, para que eu experimente a minha dita. Por esta cimitarra – que da vida privou a Sofri e a um príncipe da Pérsia, que em batalha vencera por três vezes ao Sultão Solimão – fixar quisera o olhar mais fero que na terra exista, vencer o coração mais arrojado, tirar dos peitos da ursa o próprio filho, mais: rir do leão, quando de fome ruge, para ganhar-te, ó bela! Mas, oh lástima! Quando Hércules e Licas jogam dados para saber qual deles é o mais forte, pode se dar que o melhor lanço caia do lado do mais fraco. Desse modo Alcides é vencido pelo pajem. Assim, também, se pode dar comigo, se o cego acaso me servir de guia, sendo possível que a perder eu venha e que alcance pessoa menos digna, e eu de tristeza morra.
PÓRCIA — É indispensável tentar a sorte: ou não fazer a escolha, ou jurar, antes disso, que no caso de não serdes feliz, jamais haveis de falar em casamento a outra pessoa. Portanto, refleti.
MARROCOS — Não é preciso; levai-me logo para essa aventura.
PÓRCIA — Antes vamos ao templo; após a ceia, a sorte tentareis.
MARROCOS — Dentro de pouco, ou os homens bendirão meu rico fado, ou serei tido coma amaldiçoado. (Saem.)
Cena II
Veneza. Uma rua. Entra Lanceloto Gobbo.
LANCELOTO — Certamente a minha consciência me permitirá fugir do judeu, meu amo. O espírito maligno me puxa pelo cotovelo e me tenta, dizendo-me: "Gobbo, Lanceloto Gobbo, bom Lanceloto", ou "bom Gobbo", ou "bom Lanceloto Gobbo, fazei uso das pernas, dai o primeiro passo e fugi". A consciência diz: "Não! Toma cuidado, honesto Lanceloto; toma cuidado, honesto Gobbo!" ou, como já disse: "honesto Lanceloto Gobbo, não fujas; despreza semelhante idéia". Bem; mas o muito corajoso espírito maligno me manda arrumar a trouxa. "Via!" diz o capeta; "adiante!" diz o capeta; "em nome do céu, cria coragem", diz o capeta, "e foge". Bem; mas a consciência, apegando-se-me ao pescoço do coração, diz-me com muita sabedoria: "Honesto amigo Lanceloto, como filho de um homem honesto – ou melhor: filho de uma mulher honesta – porque, para dizer a verdade, meu pai tinha um certo cheiro de... uma tendência para... uma espécie de gosto... Muito bem; e a consciência me diz: "Lanceloto, não te mexas". "Mexe-te!" diz o capeta. Não te mexas!" diz a consciência. "Consciência", digo eu, "aconselhas-me bem"; "espírito maligno", digo eu, aconselhas-me bem. Se me deixasse guiar pela consciência, eu ficaria com o judeu, meu amo, que – Deus que me perdoe! – é uma espécie de demônio; mas se deixasse o judeu, seria guiado pelo espírito maligno, que, com licença de Vossa Reverência, é o próprio diabo. Não há dúvida, o judeu é a própria encarnação do diabo, e, em consciência, minha consciência não passa de uma consciência dura, para aconselhar-me a deixar o judeu. É muito mais camarada o conselho do capeta: Vou fugir, capeta; minhas pernas estão às tuas ordens. Sim, vou fugir. (Entra o velho Gobbo, com um cesto.)
GOBBO — Vós aí, mestre moço, por obséquio: qual é o caminho para a casa do mestre judeu?
LANCELOTO (à parte) — Oh céus! É o meu pai carnal de verdade, que sendo mais do que míope, quase cego de gravela, não me reconheceu. Vou fazer uma brincadeira com ele.
GOBBO — Mestre jovem gentil-homem, por obséquio: qual é o caminho para a casa do mestre judeu?
LANCELOTO — Na primeira esquina dobrai à direita, mas na esquina próxima de todas, à esquerda, isto é: na mais próxima não precisareis dobrar nem para a direita nem para a esquerda, mas dobrar diretamente para baixo até a casa do judeu.
GOBBO — Santo Deus! Que caminho difícil de se achar! Podeis dizer-me se um Lanceloto que mora com ele, mora com ele ou não?
LANCELOTO — Falais do jovem mestre Lanceloto? (A parte) – Prestai agora atenção, que eu vou fazer subir as águas. Falais do jovem mestre Lanceloto?
GOBBO — Não é mestre, senhor; mas o filho de um pobre homem. Seu pai, muito embora eu o diga, é um pobre homem excessivamente honesto e, graças a Deus, em estado de viver.
LANCELOTO — O pai dele pode ser o que quiser; estamos falando do jovem mestre Lanceloto.
GOBBO — Amigo de Vossa Senhoria é Lanceloto, senhor.
LANCELOTO — Mas, por obséquio, velho, ergo; dizei-me por obséquio, ergo, estais vos referindo ao jovem mestre Lanceloto?
GOBBO — Sim, a Lanceloto, se for do agrado de Vossa Graça.
LANCELOTO — Ergo, mestre Lanceloto. Não faleis de mestre. Lanceloto, pai, porque o jovem gentil-homem – em obediência aos Fados e Destinos e outras expressões bizarras, às três Irmãs e outros ramos da erudição – encontra-se, realmente, morto; ou, como diríeis em termos simples, já partiu para o céu.
GOBBO — Oh! Não o permita Deus! O rapaz era o verdadeiro bastão de minha velhice, meu legítimo sustentáculo.
LANCELOTO (à parte) — Estarei com a aparência de alguma estaca, ou de mouro, de algum bastão ou de escora? Não me conheceis, pai?
GOBBO — Ai de mim! Não vos conheço, jovem gentil-homem. Mas, por obséquio, dizei-me: meu filho – Deus lhe conserve a alma – está vivo ou morto?
LANCELOTO — Não me conheceis, pai?
GOBBO — Ai, senhor; sou muito míope; não vos conheço.
LANCELOTO — Realmente, ainda que tivésseis vista, não poderíeis conhecer-me. Sábio é o pai que conhece seu próprio filho. Pois meu velho, vou dar-vos notícias de vosso filho. Dai-me vossa bênção; é preciso que a verdade apareça; um crime não pode ficar por muito tempo encoberto; o filho de um homem o pode; mas, no fim, a verdade terá de aparecer.
GOBBO — Por obséquio, senhor, ficai de pé. Tenho certeza de que não sois meu filho Lanceloto.
LANCELOTO — Por obséquio, acabemos de vez com essas tolices, e dai-me vossa bênção. Sou Lanceloto, que foi vosso pequeno e vosso filho e que será vosso descendente.
GOBBO — Não posso crer que sejais meu filho.
LANCELOTO — Não sei o que deva pensar do caso; mas, em verdade, eu sou Lanceloto, criado do judeu, e tenho certeza de que vossa mulher Margarida foi minha mãe.
GOBBO — Realmente, ela se chamava Margarida. Assim, posso jurar que, se fores Lanceloto, és de minha própria carne e de meu sangue. Deus seja louvado! Tens mais pêlos no queixo do que na cauda tem o Dobbin, meu cavalo de carro.
LANCELOTO — O que vem provar que a cauda de Dobbin cresce para trás. Tenho certeza de que, na última vez que o vi, ele tinha mais pêlo na cauda do que eu no queixo.
GOBBO — Senhor! Como ficaste diferente! Como te estás dando com teu amo? Trouxe-lhe um presente. Como vos dais presentemente?
LANCELOTO — Bem, bem; mas, por minha parte, como decidi ir embora, não hei de parar enquanto não houver corrido um bom pedaço. Meu amo é judeu legítimo. Dar-lhe um presente? Dai-lhe uma corda. Morro de fome em seu serviço. Com as minhas costelas podeis contar os dedos que tenho. Pai, alegro-me com vossa vinda. Dai-me vosso presente para um senhor Bassânio, que fornece, de fato, librés novas e raras. Se eu não conseguir entrar para o seu serviço, hei de correr até onde o permitir o chão de Deus. Ó rara Fortuna! Eis o nosso homem que vem chegando! A ele, pai! Quero ser judeu. se servir o judeu por mais algum tempo.(Entra Bassânio, com Leonardo e outros criados.)
BASSÂNIO — Podeis fazer assim mesmo, mas com a rapidez suficiente para que o jantar esteja pronto no máximo às cinco horas. Mandai entregar estas cartas; encomendai as librés e pedi a Graciano que venha logo a meus aposentos. (Sai um criado.)
LANCELOTO — A ele, pai!
GOBBO — Deus abençoe Vossa Senhoria.
BASSÂNIO — Gramercy. Quereis de mim alguma coisa?
GOBBO — Este menino aqui, senhor, é meu filho; um pobre menino...
LANCELOTO — Não pobre menino, mas o criado do judeu rico, que deseja, senhor, conforme meu pai vos irá explicar...
GOBBO — Ele tem, como se diz, uma grande declinação para servir...
LANCELOTO — Com efeito, o comprido e o curto da questão é que eu sirvo o judeu, e desejo, conforme meu pai vos irá explicar...
GOBBO — Seu amo e ele – salvo o respeito que devo a Vossa Senhoria – vivem como gato e cachorro...
LANCELOTO — Numa palavra, a pura verdade é que em virtude de maus tratos, o judeu me obrigou, conforme meu pai, que é – louvado seja Deus – um homem velho, vos justificará...
GOBBO — Aqui trago uma torta de pombas, que eu desejaria oferecer a Vossa Senhoria, e o meu pedido é que...
LANCELOTO — Para dizer tudo, o pedido é impertinente a mim mesmo, como Vossa Senhoria vai ficar sabendo por este velho honesto, o qual, embora seja eu que o diga, apesar de velho, contudo é um pobre homem e meu pai.
BASSÂNIO — Fale um apenas, em nome dos dois. Que desejais?
LANCELOTO — Servir-vos, senhor.
GOBBO — Justamente, senhor; é esse o defeito da questão.
BASSÂNIO — Conheço-te; obtiveste o que desejavas, pois hoje mesmo falei com Shylock a respeito de tua promoção, se assim poderemos chamar ao fato de deixares o serviço de um judeu rico para te tornares criado de um gentil-homem modesto.
LANCELOTO — O velho provérbio está muito bem dividido entre meu amo Shylock e vós, senhor: vós tendes a graça de Deus, e ele tem de sobra.
BASSÂNIO — Muito bem dito. Pai, vai com teu filho. Despede-te primeiro de teu amo, e pergunta onde eu moro (Aos criados.) Mandai dar-lhe a libré mais luzida; cuidai disso.
LANCELOTO — Vamos, pai. Eu nunca poderei obter serviço... Não... Nunca tive língua na boca... Bem. (Contemplando a palma da mão.) Se há homem na Itália com uma palma mais bonita para fazer um juramento sobre um livro – hei de ter uma boa sorte. Está bem claro: aqui está uma boa linha da vida, e aqui uma outra pequenina de mulheres. Ah! Quinze mulheres não são nada. Onze viúvas e nove donzelas constituem uma despesa de nada para um homem. Depois, escapar três vezes de perecer afogado e correr o perigo de morrer na quina de um leito de penas... Isto é que se chama escapar com sorte! Bem; se a Fortuna é mulher, é uma boa rapariga com tantas intenções. Vamos, pai; vou despedir-me do judeu num abrir e fechar de olhos. (Saem Lanceloto e o velho Gobbo.)
BASSÂNIO — Bom Leonardo, faze isso, por obséquio. Tudo, uma vez comprado e posto em ordem, volta depressa, pois a ceia de hoje é para os meus amigos mais chegados. Não te atrases.
LEONARDO — Confiai nos meus bons préstimos. (Entra Graciano.)
GRACIANO — Que é de vosso amo?
LEONARDO — Ali, senhor; passeia. (Sai.)
GRACIANO — Signior Bassânio!
BASSÂNIO — Graciano!
BASSÂNIO — Já está obtida.
GRACIANO — Não podeis recusar-me: preciso ir convosco a Belmonte.
BASSÂNIO — Pois não, já que é preciso. Mas atende-me, Graciano. És por demais selvagem, rude, de voz imperativa, qualidades que muito bem te assentam, sem ferir-nos os olhos da amizade. Mas a quantos não te conhecem, a impressão dão sempre de certa grosseria. Por obséquio, acalma com algumas gotas frias de modéstia esse espírito irrequieto, porque eu não seja mal interpretado lá, em virtude de teu selvagismo, e a perder venha, assim, as esperanças.
GRACIANO — Senhor Bassânio, ouvi-me. Se conspecto sereno eu não mostrar, fala sisuda; se não jurar só muito raramente; se não trouxer no bolso, a todo o instante, um livro de orações, e com modéstia não mover a cabeça... Mais: se na hora da bênção não tapar assim os olhos com o chapéu, a soltar fundos suspiros e a murmurar "Amém"... se as regras todas a ponto eu não cumprir da cortesia, como alguém que estudasse o modo austero para da avó tornar-se o preferido: jamais confieis em mim.
BASSÂNIO — Bem; esperemos, para ver confirmada essa promessa.
GRACIANO — Sim; mas faço exceção para esta noite. Não heis de me julgar por quanto eu possa praticar esta noite.
BASSÂNIO — Não; seria de lastimar. Pelo contrário, peço-vos aparecer com as cores preferidas da alegria, pois vamos ter amigos que se propõem divertir à farta. Mas, até lá, adeus; tenho negócios.
GRACIANO — E eu vou encontrar-me com Lourenço e os outros; mas contai com nós todos para a ceia.
Cena III
O mesmo. Um quarto em casa de Shylock. Entram Jessica e Lanceloto.
JESSICA — Entristece-me muito ver que deixas meu pai dessa maneira. Nossa casa é um inferno, e tu, nela, um diabo alegre, a privavas de parte de seu tédio. Mas passa bem; recebe este ducado. E Lanceloto, hás de ver hoje à ceia um convidado de teu novo amo: Lourenço. Entrega-lhe esta carta, pondo toda cautela nisso. Passa bem. Não desejara que meu pai me visse a conversar contigo.
LANCELOTO — Adeus; as lágrimas me substituem a língua. A mais bela das pagãs, a mais adorável judia! Se algum cristão não fizer alguma tratantagem para te pegar, estou redondamente enganado. Adeus; estas gotas idiotas me amolecem de alguma forma o espírito varonil. Adeus.
JESSICA — Adeus, bom Lanceloto. (Sai Lanceloto.) Oh, que odioso pecado é envergonhar-me de ter o pai que tenho! Mas embora do sangue dele eu venha, não sou filha daquele coração. Ó meu Lourenço Se a promessa cumprires, hei de em breve livrar-me desta situação enleada; cristã me torno e tua esposa amada. (Sai.)
Cena IV
O mesmo. Uma rua.. Entram Graciano, Lourenço, Salarino e Salânio.
LOURENÇO — Assim. Durante a ceia escaparemos, pomos em casa algum disfarce, e dentro de uma hora estaremos lá de novo.
GRACIANO — Não fizemos nenhum preparativo.
SALARINO — Nem assentamos nada sobre os homens que hão de levar as tochas.
SALÂNIO — Fica muito sem graça a brincadeira, quando feita sem um preparo prévio. É preferível, segundo penso, abandonar a idéia.
LOURENÇO — São só quatro horas; para prepararmo-nos ainda temos duas horas. (Entra Lanceloto, com uma carta.) Caro amigo Lanceloto, que novas nos trouxeste?
LANCELOTO — Se for do vosso agrado abrir isto, ficareis sabendo o que há de novo
LOURENÇO — Conheço a letra, sim; é bem bonita! Porém mais alva ainda do que a folha de papel em que a carta foi escrita é a bela mão que a fez.
GRACIANO — Posso jurá-lo é mensagem de amor.
LANCELOTO — Com vossa permissão, senhor.
LOURENÇO — Para onde vais?
LANCELOTO — Ora, senhor, convidar o meu antigo amo, judeu, para cear esta noite com meu novo amo, cristão.
LOURENÇO — Toma, isto é teu. Dize à gentil Jessica que não hei de faltar; fala-lhe à parte.(Sai Lanceloto.) Cavalheiros, não ides aprontar-vos para a nossa mascarada da noite? Já encontrei meu portador de tocha.
SALARINO — Oh! Certamente! Irei neste momento.
SALÂNIO — O mesmo eu digo.
LOURENÇO — Encontrar-me-eis e a Graciano em casa de Graciano numa hora.
SALARINO — Bem pensado; façamos assim mesmo. (Saem Salarino e Salânio.)
GRACIANO — Da formosa Jessica não seria aquela carta?
LOURENÇO — Preciso revelar-te o que se passa. Ela me indica o modo de tirá-la da casa do judeu, e que tem pronta para a saída uma libré de pajem. Se o pai dela, o judeu, em qualquer tempo chegar a ir para o céu, será por causa dessa adorável filha, cuja vida não poderá ser perturbada nunca por nenhuma desgraça, salvo, apenas, sob a desculpa de ser ela filha de um judeu infiel. Enquanto andamos, vai lendo isto. Será meu porta-tocha a formosa Jessica em nossa festa. (Saem.)
Cena V
O mesmo. Diante da casa de Shylock. Entram Shylock e Lanceloto.
SHYLOCK — Bem; o melhor juiz vão ser teus olhos, que hão de mostrar-te qual a diferença entre o velho Shylock e esse Bassânio. Lá tu não poderás empanturrar-te, como fazes aqui, – Olá, Jessica! – nem dormir e roncar, – Olá, Jessica! – nem rasgar tanta roupa. – Olá, Jessica!
LANCELOTO — Jessica, olá!
SHYLOCK — Quem te mandou chamá-la? Não disse que o fizesses.
LANCELOTO — Vossa Senhoria me observou muitas vezes que nada eu deveria fazer sem ordem. (Entra Jessica.)
JESSICA — Chamastes-me? Que desejais?
SHYLOCK — Jessica, hoje tive um convite para ceia. Toma conta das chaves. Nem sei mesmo porque deva aceitá-lo. Esse convite não é sincero, é adulação, apenas. Jessica, minha filha, fecha a casa. Saio pouco tranqüilo; qualquer coisa ruim fermenta contra o meu sossego, pois sonhei toda a noite com dinheiro.
LANCELOTO — Suplico-vos que vades, senhor; meu jovem amo espera vossa partida.
SHYLOCK — Como eu a dele.
LANCELOTO — Além disso, eles fizeram uma conspiração... Mas se tal acontecer, não foi à toa que o nariz me começou a sangrar na última segunda-feira de Páscoa às seis horas da manhã, no dia em que quatro anos antes caiu numa tarde de quarta-feira de cinzas.
SHYLOCK — Como! Vai haver máscaras? Ouviste, Jessica? Fecha as portas. Quando ouvires barulho de tambor e os irritantes guinchos das flautas de pescoço torto, não te ponhas a olhar pela janela, nem para a rua pública te inclines, para ver os cristãos sarapintados, mas os ouvidos tapa bem da casa, digo, as janelas, para que o barulho dessas futilidades não penetre em minha casa honrada. Juro pelo cajado de Jacó que não me sinto disposto hoje a cear fora de casa. Mas, assim mesmo, irei. Maroto, corre; dize-lhes que já chego.
LANCELOTO — Já vou, senhor. Senhorita, apesar das recomendações, olhai pela janela, porque vai um cristão passar de dia, digno do olhar de uma judia. (Sai Lanceloto.)
SHYLOCK — Hem? Que foi que falou esse estouvado da geração de Agar?
JESSICA — Disse somente: "Passai bem, senhorita", nada mais.
SHYLOCK — Esse palhaço não é má pessoa, mas come por demais; é caramujo para lucros e dorme o dia todo, como um gato selvagem. Não, comigo não prosperam zangões. Por isso deixo que se vá, e que vá para o serviço de um amo a quem desejo que ele possa vir a ajudar a esvaziar a bolsa de dinheiro emprestado. Bem, Jessica, vai logo para dentro. É bem possível que eu volte cedo. Faze o que te disse: fecha a porta ao passares. "Bem trancada, bem guardada", é sentença por quem sabe ganhar sempre acatada. (Sai.)
JESSICA — Se tudo me correr à maravilha, pai já não tenho e tu tiveste filha. (Sai.)
Cena VI
O mesmo. Entram Graciano e Salarino, de máscaras.
GRACIANO