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UNIVERSIDADE
FEDERAL DE SANTA CATARINA
Aires
José ROVER, professor
=
http://infojur.ufsc.br/aires<=
/p>
=
=
Entrevista [fazer
comentário]
Raymond Kurzweil
Seremos todos cyborgs <=
o:p>
O cientista americano prevê que,=
no futuro, homens e máquinas se
fundirão, expandindo nossa inteligência =
p>
Bel Moherdaui

Raymond Kurzweil acredita que
estará vivo para presenciar o "momento metamórfico&quo=
t;,
quando computadores superarão a inteligência humana. É
verdade que, aos 58 anos, talvez tenha de viver outro meio século =
ou
mais – mas já está cuidando disso, com seu pró=
prio
método de longevidade. Nesse futuro não muito distante,
robôs microscópicos percorrerão as veias humanas
até chegar ao cérebro. Ali, serão capazes de ligar e
desligar os cinco sentidos, conectar-se &agrav=
e;
internet e fazer download de novas habilidade=
s. O
mais incrível é que as previsões desse cientista e
inventor americano, gênio profissional desde a infância,
estão sendo ou possivelmente ainda serão confirmadas pelos
fatos. Como uma espécie de Professor Pardal moderno, Kurzweil dedica mais da metade do seu tempo a preve=
r o
futuro da tecnologia e a criar máquinas a partir desses
avanços. Na semana passada, fez uma apresentação em São Paulo
– diretamente de Dallas, no Texas: a "pessoa" que discorr=
eu
sobre tecnologia do futuro e conversou com a platéia era sua imagem
virtual projetada no palco com grande realismo. Aqui ele fala sobre esse e
outros prodígios.
Veja – Como foi sua apresentaçã=
;o
virtual no Brasil?
Kurzweil – Eu apareci p=
ara a
platéia em tamanho natural e em três dimensões. &Eacu=
te;
uma imagem muito realista. Em outras apresentações que fiz =
com
essa tecnologia, as pessoas pensaram que eu estava presente de verdade. Um
espectador até veio ao palco me entregar um papel.
Veja – Alguma semelhança com o pedido=
de
socorro da Princesa Leia no primeiro Guerra nas Estrelas=
?
Kurzweil – É outra
tecnologia. A aparição dela, uma holografia, era um pouco
embaçada, parecia ter baixa resolução. A minha tem a=
lta
resolução.
Veja – O senhor apostou 10.000 dólares
que até 2029 um computador será capaz de responder a uma
série de perguntas como se fosse humano. Como isso será
possível?
Kurzweil – Os computadores
vão atingir inteligência equivalente à humana, tanto =
no
campo do hardware (a máquina) quanto no do software (o programa). =
A máquina
precisa ter capacidade de cálculo e memória suficientes para
simular todas as diferentes áreas do cérebro, e acredito que
isso será alcançado por um supercomputador até 2010 e
por um computador pessoal comum até 2020. Já na parte do
software, o caminho é a engenharia reversa, método que cons=
iste
em desmontar um equipamento para ver como ele funciona, aplicada ao
cérebro humano. Os conhecimentos nessa área têm
evoluído exponencialmente. A quantidade de informaçõ=
es
que possuímos sobre o cérebro humano dobra a cada ano, e ac=
ho
que vamos terminar de modelar e simular todas as suas áreas, inclu=
sive
aquela na qual processamos o pensamento abstrato, em cerca de vinte anos.
Até 2029, teremos tudo pronto.
Veja – O senhor já mudou de idé=
;ia
a respeito de alguma de suas muitas previsões?
Kurzweil – Até ago=
ra,
não. No meu primeiro livro, The=
Age of Intelligent Machines, escrito há vinte anos, previ o
surgimento de uma rede de comunicação internacional em mead=
os
dos anos 90. Previ que um computador venceria um campeonato de xadrez em =
1998
(aconteceu em 1997). Previ que em 2013 um supercomputador conseguiria faz=
er
os cálculos necessários para um computador alcançar a
inteligência humana e, logo depois que publiquei o livro, o Jap&ati=
lde;o
anunciou o projeto de um supercomputador que atingiria essa marca em 2010.
Minhas projeções na verdade são bem conservadoras. E=
u me
esforço para fazê-las assim, embora as pessoas as considerem
exageradamente otimistas.
Veja – Como o senhor faz suas
projeções?
Kurzweil – Eu percebi,
há trinta anos, que a chave para o sucesso de projetos
tecnológicos é o timing. Muitas invenções
fracassaram não porque não funcionavam, mas porque nã=
;o
dispunham de todos os fatores necessários para dar certo. Passei a
estudar tendências, acumulei dados sobre a evolução da
tecnologia e desenvolvi modelos que funcionam bem. É verdade que
não se pode prever o futuro, mas a forma como
conteúdos e processos de tecnologia se desenvolvem é=
bem
previsível. Veja o seqüenciamento
genético: a quantidade de informação genética
dobra todo ano. Não é um cálculo aproximado. É
exatamente isso.
Veja – Por que a tecnologia evolui dessa form=
a?
Kurzweil – Basicamente po=
rque
ela desenvolve certa capacidade e usa essa capacidade para chegar ao degr=
au
seguinte. Os primeiros computadores levaram anos para ser criados porque
foram feitos a partir de papel, caneta, fios e chave de fenda. Agora
utilizamos computadores para criar as próximas geraçõ=
;es
em questão de horas. Estamos sempre empregando a última
tecnologia para desenvolver a próxima, e ela vai ficando mais e ma=
is
poderosa.
Veja – O senhor afirma que chegará o
momento em que as máquinas vão superar a inteligência
humana. Como será isso?
Kurzweil – Com a engenhar=
ia
reversa, seremos capazes de reproduzir todas as áreas do
cérebro humano. Vamos entender como funciona a inteligência
humana e utilizar esses métodos em computadores. A&iac=
ute;,
combinando as formas em que a inteligência humana é superior=
com
as formas em que as máquinas são superiores, teremos um pod=
er
muito grande: as habilidades da máquina, como velocidade e
memória, combinadas com o reconhecimento de padrões da
inteligência humana. Por volta de 2030, um computador comum ser&aac=
ute;
mil vezes mais poderoso que o cérebro humano. =
p>
Veja – Alguns pesquisadores temem o que pode acontecer com a
humanidade quando os computadores se tornarem inteligentes demais. O senh=
or
tem algum receio?
Kurzweil – Nenhum. As
máquinas inteligentes serão parte da
nossa civilização. Vamos ficar cada vez mais próximos
delas. Vamos carregá-las no bolso, elas estarão na nossa ro=
upa
– até no nosso corpo, expandindo a nossa própria
inteligência.
Veja – Dentro do corpo?
Kurzweil – Falo dos nanobots, robôs do tamanho das células=
do
sangue. Já estão sendo testados com sucesso em animais e de=
vem
estar bem sofisticados em 2020. Os nanobots
chegarão ao cérebro pelas veias e poderão interagir =
com
nossos neurônios biológicos, tornando-nos mais inteligentes,
melhorando nosso bem-estar físico e aumentando a longevidade.
Veja – O senhor acha que poderá
testemunhar essas extraordinárias mudanças?
Kurzweil – Estou me prepa=
rando
para isso. No livro A Medicina da Imortalidade, que assino com Terry Grossman, falamos=
das
três pontes que levarão à extensão da vida. A =
primeira
é a que pessoas como eu já estão=
trilhando, fazendo uso do conhecimento existente para se manter em boa fo=
rma,
envelhecendo o menos possível. Só assim poderemos cruzar a
segunda ponte, que será a reprogramação da biologia,
resultado da revolução da biotecnologia. Descobrimos
recentemente que podemos ligar ou desligar genes, adicionar novos, ligar
enzimas e reprogramar a biologia, de modo a e=
vitar
doenças e envelhecimento. Isso também está
avançando exponencialmente. Em dez ou quinze anos vamos ter as fer=
ramentas
para superar o processo de envelhecimento e de muitas doenças. Eu
mesmo envelheci bem pouco nos últimos dezoito anos. Quando tinha 4=
0,
minha idade biológica era 38. Agora tenho 58 e minha idade
biológica é 40 anos. Portanto,
envelheci dois anos em
dezoito. Em 25 anos, espero continuar com idade
biológica de 40. E até lá teremos ferramentas ainda =
mais
poderosas.
Veja – E qual seria a terceira ponte?<=
/i>
Kurzweil – Os nanobots, que serão colocados no corpo e nos
manterão saudáveis de dentro para fora. Parece
ficção científica, mas muito disso já est&aac=
ute;
sendo desenvolvido e demonstrado em animais. Um cientista já curou o
diabetes tipo 1 em ratos com microrrobôs
que controlaram a produção de insulina internamente. Outro,=
do
MIT, fez uma conexão entre os nanobots=
e
células cancerígenas e conseguiu destruí-las. Levand=
o-se
em consideração a impressionante evolução des=
sa
tecnologia, o cenário que prevejo é bastante realista. As
pessoas da minha idade poderão realmente continuar vivas e
saudáveis por muito mais tempo.
Veja – O que o senhor faz para cuidar da sua
saúde?
Kurzweil – Eu tomo suplem=
entos
e sigo uma dieta especial. Para cada aspecto do envelhecimento – do
cérebro, do olho, da pele, do sistema digestivo –, sigo um
programa baseado em suplementos e aspectos nutricionais. Também
monitoro a saúde, vigiando cerca de cinqüenta fatores do sang=
ue.
Acho que vou indo muito bem.
Veja – Programas de inteligência artifi=
cial
já são usados na leitura de eletrocardiogramas, para decola=
r e
aterrissar aviões, para guiar armas inteligentes e até para
tomar decisões sobre investimentos. O que mais farão no fut=
uro
próximo?
Kurzweil –Vamos ver a inteligência artifi=
cial
lidar com a linguagem humana com muito mais habilidade. As ferramentas de
busca, em vez de procurarem uma palavra isolada, sem entender o que
significa, vão compreender o que lêem e poderão buscar
conceitos. Vamos interagir com agentes virtuais, na =
web,
no telefone, em linguagem natural. As traduções
automáticas serão muito mais aperfeiçoadas. Minha
empresa acaba de introduzir no mercado um equipamento portátil para
cegos, que lê qualquer material impresso: outdoor,
instruções numa caixa, a tela do monitor no caixa
automático, cardápio. Em alguns anos vamos acrescentar a
capacidade de descrever objetos e ambientes.
Veja – Computadores e telefones celulares mud=
aram
a vida da humanidade nos últimos dez anos. No futuro próxim=
o,
alguma outra tecnologia terá impacto semelhante?
Kurzweil – Nós dois
agora estamos em um espaço de realidade virtual que incorpora um s=
entido,
a audição, pelo telefone. Nas próximas década=
s,
teremos imagens projetadas diretamente na retina, através de
óculos, e poderemos criar ambientes completos de realidade virtual=
. Ou
seja, com a mesma facilidade com que você fez esta
ligação, nós poderemos estar sentados frente a frent=
e no
Taj Mahal, numa praia do Mediterrâneo ou aí no seu trabalho,=
em
um ambiente totalmente criado. No futuro, teremos também a realida=
de
virtual sobreposta à realidade real, como uma espécie de pop-up em uma camada acima da realidade real, capaz=
de
lembrar a pessoa de um nome, um aniversário, o que for.
Veja – A essa altura, ninguém mais vai
poder se isolar em uma praia sem telefone, sem televisão, sem
computador, desconectado do mundo?
Kurzweil – Isso ser&aacut=
e;
possível, sim. Mas, com a realidade virtual ligada ao sistema nerv=
oso,
com nanobots substituindo os sinais enviados =
pelos
sentidos reais por sinais de um ambiente virtual, a pessoa poderá =
ir
para alguma praia imaginária, que talvez seja muito melhor do que =
as
praias de verdade.
Veja – Vamos chegar ao ponto em que computad=
ores
farão tudo sozinhos, sem interferência d=
os
humanos?
Kurzweil – No meu modo de=
ver,
o homem vai se fundir com a tecnologia. Teremos seres humanos com
milhões de computadores no cérebro, híbridos de inte=
ligência
biológica e não-biológica. Esse tipo de cyborg ainda se considerará humano. Eu
também o considerarei humano. Alguns já existem. Uma pessoa=
que
tem a doença de Parkinson pode implantar neurônios artificia=
is
para substituir aqueles que foram destruídos. No futuro, por&eacut=
e;m,
isso acontecerá de forma não invasiva<=
/span>.
Não vamos poder entrar numa sala e separar, de um lado, computador=
es
e, de outro, seres humanos. Será tudo misturado.
Veja – O senhor gosta de filmes de
ficção científica?
Kurzweil – Não mui=
to.
Fico irritado com o fato de explorarem uma mudança e o resto conti=
nuar
igual. Em
Inteligência Artificial, por exempl=
o,
tirando os cyborgs semelhantes aos hum=
anos,
nada mais mudava: a cafeteira era igual, os carros eram iguais, não
existia realidade virtual. É ridículo. A maioria dos filmes
sobre o futuro faz isso. Eles ainda tendem a mostrar a tecnologia como uma
coisa ruim, que causa destruição. Eu não concordo,
embora também não tenha uma visão utópica. Ac=
ho
que continuaremos a ter conflitos humanos e a tecnologia será usada
para o bem e para o mal. Mas é inegável que ela mais ajuda =
do
que prejudica.
Veja – Como nasceu Ramo=
na,
seu alter ego virtual?
Kurzweil – Em uma
conferência de tecnologia, entretenimento e design, em 2001. Coloqu=
ei
sensores magnéticos na minha roupa, de forma que os computadores
captassem todos os meus movimentos e, em tempo real, formassem uma imagem
bastante realista de uma jovem, Ramona, roque=
ira de
25 anos de Nova Orleans. Ela basicamente se
movimentava como eu me movimentava. Minha voz foi transformada na voz del=
a,
usando outra tecnologia. A platéia me via e também via Ramona, como se fosse ela que estivesse fazendo a
apresentação. Foi muito intrigante.
Veja – Como era se ver no corpo de outra,
digamos, pessoa?
Kurzweil – Conforme eu me
olhava no monitor, era como olhar no espelho, só que, em vez de ve=
r a
imagem de sempre, eu via outra pessoa. Entrei mesmo no personagem e perce=
bi
que o corpo que eu tenho é apenas uma forma de eu me expressar. No
futuro, teremos experiências como essa rotineiramente, e de maneira
muito mais realista.
Veja – E qual foi seu objetivo ao criar Ramona?
Kurzweil – Mostrar que,=
em
ambientes de realidade virtual, podemos ser outra pessoa. Acompanhe meu
raciocínio. No fim da década de 2020, os nanobots
instalados no cérebro poderão desligar os sinais emitidos p=
elos
sentidos reais e substituí-los pelos sinais equivalentes vindos de=
um
ambiente virtual. Aí teremos a realidade virtual diretamente no
sistema nervoso e nos sentiremos realmente dentro do ambiente virtual,
incorporando todos os cinco sentidos. Aliás, o design de ambientes
virtuais será uma nova forma de arte. E a pessoa vai poder escolher
não só o ambiente como também seu corpo virtual. Qua=
ndo
mexer a mão na frente do rosto, mexerá a mão virtual=
, não
a real. Uma professora poderá pedir ao aluno que seja um personagem
histórico, e não apenas que se vista como um. Poderemos
explorar várias facetas da nossa personalidade.
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