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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA |
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Aires José ROVER, professor |
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RESUMO DE LIVRO |
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A condição humana Hannah Arendt, Rio de Janeiro: Forense, 1993
Disciplina A tecnologia e o mundo real CPGD 2005/3 Ficha de leitura realizada por Fabiana de Assis Pinheiro
PRÓLOGO
A autora apresenta a obra resgatando os avanços da ciência vivenciados no momento da edição do livro. Destaca a importância da expedição que enviou o homem à Lua e o significado de libertar a humanidade da permanência na terra, lembrando que a terra é a quintessência (essencial) da condição humana, sendo o habitat natural dos seres humanos.
Para a autora, o sentimento de se libertar da permanência terrena manifesta-se ainda nas tentativas tecnológica de fuga da condição humana ao buscar o prolongamento da vida pelas manipulações genéticas.
Os efeitos colaterais dos avanços científicos são expressos na crise das ciências naturais, já que as verdades da ciência embora possam ser comprovadas por meio de fórmulas matemáticas não são hábeis as expressões da fala e do raciocínio. Nesse sentido o cérebro humano não pode acompanhar ações humanas o que leva a necessidade das máquinas a pensar e falar pelos homens.
O texto destaca que o ajuste entre a atitude cultural e o estado de realização científica conduziria o homem a um modo de vida no qual o discurso não teria sentido.
O impacto da automatização é mencionado como um evento próximo que produzirá impactos sobre as relações de trabalho. A libertação do homem do fardo do trabalho chegará em um momento em que a sociedade se identifica como uma sociedade de trabalhadores em que outras atividades (denominada superiores) não são mais conhecidas. Para a autora, não existe mais sentido nesta libertação.
A reconsideração da condição humana a partir das novas experiências e nossos temores é a proposta apresentada pela autora na introdução, razão pela qual elege como tema central a seguinte afirmação ou indagação: “o que estamos fazendo”. A abordagem proposta dessa indagação avaliará as manifestações elementares da condição humana que alcançam a todos.
CAPÍTULO I A condição humana A vita activa e a condição humana
A definição de vita activa apresentada designa três atividades humanas fundamentais: labor, trabalho e ação. O labor é definido como a atividade ligada ao processo biológico do corpo humano; a condição humana do labor é a própria vida. O trabalho, por sua vez, é a atividade artificial da condição humana; a condição humana do trabalho é a mundanidade. A ação é a atividade que se exerce diretamente entre os homens sem mediação da matéria; a condição humana da ação é a pluralidade.
A pluralidade é trabalhada pelo texto como a condição da ação humana que deriva do fato de sermos humanos (semelhantes), contudo sem sermos iguais.
A autora trabalha a relação entre essas atividades humanas com a condição humana da natalidade e da mortalidade. O labor, o trabalho e a ação têm relação com a natalidade na medida em que esta prepara o mundo para a chegada de outros. Por outro lado, aponta que a ação está mais ligada à condição da natalidade, aquela é atividade política por excelência o que leva a autora a concluir que a natalidade constitui a categoria central do pensamento político; enquanto a mortalidade, do pensamento metafísico.
Os homens são apresentados como seres condicionados na medida em que tudo aquilo que entra em contato como homem torna uma condição da existência deste. Nesse sentido o impacto da realidade do mundo sobre a existência humana é sentido e recebido como força condicionante. Ao abordar essa característica, a autora distingue a natureza humana da condição humana. Por outro lado, apresenta que as condições da natureza humana – vida, natalidade, mortalidade, mundanidade, pluralidade e o planeta terra, não são condicionantes absolutas, razão pela que não são capazes de explicar “o que somos”.
A expressão Vita activa
A expressão recebe uma carga da tradição do pensamento político que não expressa as experiências políticas da humanidade ocidental. Com o desaparecimento das cidades-estados, a expressão vita activa deixou o significado político para adquirir a denotação de engajamento ativo nas coisas do mundo.
Tradicionalmente, a expressão vita activa não perdeu a conotação negativa de inquietude. Para a autora, a expressão manteve-se liga a distinção grega entre as coisas que são por si o que são e as coisas que devem ao homem a sua existência. Por essa razão a contemplação se coloca em posição privilegiada em relação ao trabalho humano, já que o trabalho humano jamais alcançará a beleza e a verdade do cosmos. (do ponto de vista da contemplação, não importa o que perturba a necessária quietude; o que importa é que ela seja perturbada).
O significado da expressão vita activa advém da expressão via contemplativa, razão pela qual se caracteriza por uma limitada dignidade, uma vez que serve as necessidades e as carências de contemplação do corpo vivo.
A condição humana não se esgota pelos vários aspectos da vita activa ainda que se incluísse nesta o pensamento e o raciocínio. O conceito da expressão pela autora está em contradição com a tradição porque esta nega a hierarquia que acompanha a expressão. Para a autora, o valor concedido à contemplação obscureceu as diferenças e as manifestações da vita activa.
Eternidade versus Imortalidade
O engajamento e a contemplação são colocados pela autora como duas preocupações humanas inteiramente diferentes. Os homens de pensamento e os homens de ação são colocados em caminhos diferentes desde a ascendência do pensamento político. A autora utiliza para ilustrar essa distinção as diferenças entre imortalidade e eternidade. A mortalidade tornou-se o emblema da existência humana, por outro lado, o desafio dos mortais é a produção de feitos que pertençam à eternidade e que os levem a um lugar imortal no cosmo. O engajamento relaciona-se com a busca da imortalidade. A contemplação liga-se ao eterno, em contraposição a todas as atividades que podem se relacionar com a imortalidade.
A autora descreve que a queda do Império Romano e a acessão do cristianismo tornaram fútil e desnecessária a busca pela imortalidade o que transformou a vita activa em contemplação, já que a procura da imortalidade tinha sido o centro e a fonte desta. Por outro lado a modernidade e a inversão da hierarquia tradição (ação e contemplação) não foram suficientes para resgatar a busca da imortalidade – a importância do engajamento.
CAPÍTULO II AS ESFERAS PÚBLICAS E PRIVADA O homem: animal social ou político
A autora introduz a abordagem, traçando uma perspectiva distinta entre atividade humana e ação humana. Nesse sentido, para a autora, aquela é condicionada pelo convívio conjunto dos homens; a ação humana, por sua vez, precisa ser realizada numa sociedade de homens.
Essa relação entre ação e vida em comum justifica a tradução do conceito aristotélico de zoon politikon em animal socialis, consagrado na tradução: o homem é, por natureza, político, isto é, social( homo est naturaliter politicus, id est, socialis). Para a autora, a substituição do político pelo social revela o esquecimento da concepção grega do político.
O pensamento político grego diferencia a organização política da associação natural constituída pela casa e pela família. As atividades humanas consideradas políticas e constituintes são a ação (práxis) e o discurso (lexis). Estes eram considerados da mesma categoria e espécie na medida de em que as ações políticas eram realizadas por meio de palavras. O ato de encontrar as palavras, por sua vez, constitui uma ação. O político, ou seja, o viver numa polis, significava decidir mediante palavras e persuasão. A violência e a força, por sua vez, eram próprias dos modelos pré-políticos, típicos da vida fora da polis.
A autora conclui que o zoon politikon de Aristóteles era uma categoria oposta à associação natural da vida no lar.
A Polis e a Família
O equívoco de interpretação do político e do social das expressões gregas e latinas agravou-se a partir do uso moderno e na moderna concepção da sociedade. Na modernidade, distinta da privada e da pública nos sentidos restritos do termo, surge a esfera social que encontra uma forma política no Estado nacional.
Na tradição grega, a esfera familiar era caracterizada pela convivência de homens compelidos pelas necessidades e carências; a esfera da polis, por outro lado, pela liberdade. A superação das necessidades e carências da vida relacionava as duas esferas, já que essa superação tornava-se a condição para a liberdade na polis. A filosofia grega entendia que a liberdade situava-se exclusivamente na esfera política; a necessidade, numa esfera pré-política.
Destaca a autora que a polis se distingui da família, pois é um espaço de igualdade; enquanto a família, de desigualdade.
No mundo moderno, as esferas sociais e política não se diferenciam; essas duas esferas recaem uma sobre a outra, não se verificando uma separação entre o público e o privado.
A Promoção do Social
O deslocamento da sociedade pela passagem da administração familiar dos problemas e recursos para a resolução pública. O deslocamento do privado para o público não só reduziu o espaço que separava essas esferas, mas também concedeu um novo significado a elas e uma nova importância para a vida do indivíduo e do cidadão.
Na modernidade, a esfera privada diferencia-se da esfera social; enquanto, na antiguidade, a esfera social pertencia à vida privada. O texto descreve a exploração da intimidade desde Rousseau para afirmar que intimidade foi construída contra as exigências niveladora do social o que, atualmente, denomina-se a exigência conformismo de toda a sociedade. O conformismo, por sua vez, identifica-se como característica do último estágio de evolução da sociedade moderna. A sociedade exclui a ação, impondo comportamento aos membros com o objetivo de normalizar, e abolir a ação espontânea ou reação inusitada.A sociedade de massa alcançou o controle de todos os membros de determinada comunidade.
A igualdade do mundo moderno mostra-se pelo reconhecimento político e jurídico da conquista da esfera pública pela sociedade; a distinção e a diferença reduziram-se a questões privadas e individuais. Assim conclui Arendt que a igualdade moderna apóia-se no conformismo que se torna possível pela substituição da ação pelo comportamento.
O conformismo é a base da economia; a estatística, um instrumento desta.
Quanto maior a população de um corpo político maior é a probabilidade de que o social não o político constitua a esfera pública. Os agrupamentos de indivíduos inclinam-se ao despotismo pessoal ou ao governo da maioria. Os grandes números, desse modo, justificam o conformismo e o behaviorismo que, na realidade, revelam um “equivoco”quanto à validade das leis. Uma maior população apresenta uma maior possibilidade de comportamento e uma menor possibilidade de tolerância ao desvio.
A uniformidade estatística é um ideal político que revela uma sociedade não só imersa no cotidiano mas também pacífica na aceitação da concepção científica da própria existência.
O texto mensura a vitória da sociedade na modernidade, apontando a substituição da ação pelo comportamento e, a posterior, alteração do governo pessoal pela burocracia. Ao mesmo tempo, destaca que a economia, num estágio inicial, traçava padrões de comportamento que, na realidade, aplicavam-se a certos setores da população; a ciência do comportamento, por outro lado, objetiva reduzir o homem a um todo em todas as atividades o que indica um estágio final em que a “sociedade de massas devorou as camadas da nação e a conduta social foi promovida a modelo de todas as áreas da vida.”(p. 55)
O surgimento da sociedade mudou a avaliação da esfera privada. O caráter monolítico da sociedade e o conformismo que produzem um único interesse e uma única opinião têm raízes na unicidade da humanidade.
O texto apresenta a comunidade moderna como sociedades de operários e assalariados a indicação de que a nova esfera social caracteriza-se pela organização público do próprio processo vital em que as comunidades concentram-se em torno da atividade necessária para manter a vida – o labor.
Essa esfera social produz um crescimento artificial do natural(crescimento acelerado da produtividade e do trabalho (labor)) que o privado, o intimo e o político mostram-se incapazes de oferecer resistência. A esfera social desenvolveu-se pela organização do labor. O discurso e a ação foram deslocados para a esfera do íntimo e do privado. O texto alerta que a ciência não substitui a necessidade de concessão de espaço para o desenvolvimento de atividades. A espera pública é o local adequado para a excelência humana.
A Esfera pública: o comum
O termo público traduz para a autora dois fenômenos: o primeiro, a visibilidade em que tudo o que vem a público pode ser visto e ouvido por todos e tem a maior divulgação possível e a aparência em que aquilo é visto e ouvido pelos outros e por nós mesmos constitui a realidade. Dessa forma a percepção da realidade é dependente da aparência e, por conseqüência, da esfera pública. Por outro lado, o texto destaca que a ampliação da esfera privada não a torna pública.
O segundo, o mundo que é comum a todos, porém distinto do mundo natural condicionante da vida orgânica, concebido como produto do humano, um mundo habitado e feito pelo homem.
A esfera pública é o espaço de reunião dos homens que impede a colisão. Nas palavras de Arendt “o que torna tão difícil suportar a sociedade da massas não é o número de pessoas que ela abrange, ou pelo menos não é este o fator fundamental; antes, é o fato de que o mundo entre elas perdeu a força de mantê-las juntas, de relacioná-las umas às outras e de separá-las.”(p.62)
O caráter apolítico da comunidade cristão foi descrito pela autora por meio do princípio da caridade que une irmãos.
Nesse tópico, a autora retoma a idéia de que a desaparecimento do espaço público na modernidade advenha da perda do interesse da imortalidade e da preocupação metafísica da eternidade.
A autora expressa a objetividade da substituição da admiração pública pela recompensa monetária.
Nas condições de um mundo comum, a realidade manifesta-se pelo interesse de todos em um mesmo objeto. A destruição do mundo comum dá-se pela impossibilidade de discernimento da identidade do objeto, ocorrendo normalmente pela deterioração prévia de mundo aspectos desse mundo apresentados à pluralidade humana. Os homens tornam-se homens privados, “privados de ver e ouvir os outros e privados de ser vistos e ouvidos por eles”, transformando-se em prisioneiros da subjetividade da própria existência. Conclui a autora que o mundo comum chega ao fim quando é visto sob um único aspecto e perspectiva.
A Esfera privada: a Propriedade
O termo privado está relacionada a acepção original de privação. A privação da privacidade reside na ausência de outros. As circunstancias moderna, nas sociedades de massa, esse fenômeno revela-se pela solidão. As sociedades de massa destroem não só a esfera pública, mas também a esfera privada, privando o homem não só do lugar no mundo (espaço público) mas também do lar privado.
A autora destaca que a consciência de estar privado de algo essencial numa vida passada na esfera doméstica perde sentido com o cristianismo.
As esferas pública e privada se relacionam de maneira que o desaparecimento da esfera pública seja acompanhado do ameaça de destruição da esfera privada. Nesse sentido a conexão entre público e privado se reflete na questão da propriedade privada. O texto aborda a possibilidade de má interpretação da propriedade privada em razão do equacionamento entre a propriedade e a riqueza e, de outro lado, a propriedade e a pobreza.
Ao abordar a questão da propriedade privada, destaca o texto que, antes da modernidade, a propriedade era sagrada. Essa qualidade é alcançada com a sociedade agrícola, na medida em que a terra correspondia ao mesmo tempo à fonte de renda e ao espaço da família. A lei correspondia a um espaço intermediário entre o público e o privado, abrigando e protegendo essas duas esferas e, ao mesmo tempo, separando-as. O texto aponta que a idéia de ato de legislar como uma atividade política é uma criação moderna expressa na filosofia política de Kant.
A propriedade privada representava muito mais do que a condição para ingresso na arena pública. A privatividade revelava uma característica do político como a mais alta possibilidade da existência humana e do privado como própria existência humana.
O Social e o Privado
A sociedade ao alcançar a esfera pública assumiu o papel de proteção da organização de proprietários, para garantir a estes maior possibilidade de acúmulo de riqueza. Esta, por sua vez, transforma-se em capital cuja função é gerar mais capital.
O texto apresenta que, no início da era moderna, a contradição entre o público e o privada mostrou-se um fenômeno temporário na medida em que a esfera pública e privada foram absorvidas pela esfera social.
Segundo o texto, encontramos em posição correta para visualizar as conseqüências para a existência humana do desaparecimento das esferas da vida em que a esfera pública tornou-se função da esfera privada e esta porque se transformou na única preocupação comum.
Na modernidade, a intimidade apresenta-se como o substituto da esfera privada, contudo para o texto essa substituição não se mostra segura. Para demonstrar essa afirmação, pontua aspectos de não-privação da privacidade. Primeiro, sustenta que as posses particulares são necessárias, sem elas não há sentido no coletivo. As necessidades são importantes para a existência humana já que a eliminação desta ameaça a própria vida. Segundo, afirma que a privatividade oferece um refúgio ao mundo político e a publicidade deste mundo.
A autora destaca que os aspectos de não-privação da privatividade são expostos com mais visibilidade quando recaem sobre eles as ameaças de perda. Contudo a autora destaca que as atividade realizadas na esfera pública não foram objeto de proteção em que a preocupação voltou-se para a posse privada e a necessidade de proteção do acúmulo de riqueza.
O texto encerra o tópico abordando que a distinção entre a esfera pública e privada é encarada do ponto de vista da privatividade, conectando o que deve ser revelado e o que precisa ser ocultado. Na verdade, para o texto a privatividade sempre ocultou as atividades relacionadas com o próprio processo vital, razão pela qual o trabalho (escravo e a servidão) e a mulher eram considerados categorias semelhantes e colocados no oculto do lar. Para o texto, a emancipação da modernidade da classe operária e da mulher deve estar relacionada a perda da importância das funções corporais.
A Localização das Atividades Humanas
O texto afirma que todas as atividades humanas têm um localização adequada no mundo. Para descrever, resgata as categorias da bondade e da sabedoria para analisar a posição destas no mundo. Apresenta o objetivo de analisar as atividades da vita activa, que têm sido negligenciadas pela tradição que as observa do ponto de vista da contemplação, para determinar o significado político desta.
CAPÍTULO III LABOR
“O labor do Nosso Corpo e o Trabalho de Nossas Mãos”
Neste capítulo, a autora propõe fazer uma crítica a Karl Marx.
A autora busca a fundamentação da distinção entre labor e trabalho na fenomenologia. Para a autora, a historia não denuncia uma distinção entre essas termos. Contudo as línguas da Europa podem ser resgatadas para demonstrar a distinção etimológica dos termos que, na atualidade, são considerados sinônimos. A autora destaca que o correspondente substantivo de trabalho e a ausência de substantivo de labor demonstram a diferença de significados entre os termos.
Para a autora, o motivo da ausência de exame para demonstrar a distinção pelos antigos é obvia. Na concepção moderna, o desprezo pelo labor está relacionado ao fato de que o labor e o trabalho eram atividades realizadas a escravos e servos. Na antiguidade, o raciocínio era diverso, os antigos sustentavam a necessidade de escravos em razão da atividade desenvolvida por estes que se relacionavam com a manutenção da vida. A escravidão buscava excluir o labor das condições da vida humana.
Com a teoria política, os filósofos eliminaram a distinção entre a esfera privada, política e pública, colocando a contemplação em oposição a qualquer tipo de atividade. Na modernidade, ao se inverter a ação e a contemplação na vita activa, o labor assumiu uma posição fundamental, o animal laboran alcançou a posição antes concedida ao animal rationale. Contudo não há teoria que diferencie animal laboran e homo faber.
A autora identifica a produtividade como a razão para justificar a promoção do labor ao trabalho. A expressão marxciana de que o trabalho criou o homem, revela para a autora uma expressão radical de uma idéia da época. A distinção entre trabalho produtivo e improdutivo contém segundo a autora. Uma distinção entre trabalho e labor. Este se caracteriza pelo consumo imediato do esforço de que depende a própria vida.
Numa sociedade socializada, no modelo marxciano, a distinção entre labor e trabalho desaparece; este se torna aquele, uma vez que todas as coisas seriam concebidas como resultado da força viva do labor, como função do processo vital.
O Caráter de Objeto do mundo
A autora confronta o desprezo da antiguidade pelo labor e a gloria da modernidade por este, argumentando que esses sentimentos apóiam-se na atitude subjetiva e na atividade do trabalhador em que se destaca o doloroso esforço e a produtividade. A produtividade do trabalho, por outro lado, mede-se pela necessidades do processo vital.
A linguagem é apontada pelo texto como o instrumento de revelação entre as distintas coisas do mundo e, conseqüentemente, a vita activa são de natureza diferentes e produzidas por tipos diferentes de atividade. Nesse sentido, os produtos do trabalho – e não os produtos do labor – tornam o mundo possível.
O discurso e a ação são diferentes dos bens de consumo e dos objetos de uso, juntos constituem a textura das relações humanas. As atividades de agir e falar são manifestações externas da vida humana que dependem da pluralidade humana, para ver e ouvir. Por outro lado, a atividade de pensar não exige a manifestação externa com um mundo, uma vez que é real, independentemente, de ser consumida.
Por sua vez, a ação, o discurso e o pensamento relacionam-se entre si com mais profundidade do que se ligam ao trabalho e/ou labor, uma vez que não produzem nem geram algo; são fúteis como a vida.
A realidade e a confiabilidade do mundo humano estão no fato de que estamos rodeados de coisas mais permanentes que as atividades que a produziram.
Labor e Vida
A palavra vida tem significados diferentes, designando o intervalo de tempo entre o nascimento e a morte. Nesse sentido a vida segue uma trajetória linear, sendo repleta de eventos que podem ser narrados como história. O discurso e a ação são eventos que produzem uma história.
O processo biológico e o processo de declínio do mundo são eventos cíclicos, razão pela qual é infinitamente repetitivo. Por outro lado, as atividades humanas relacionadas com as necessidades dos processos biológicos são ligadas aos ciclos da natureza, não tendo começo ou fim. O processo de labor movimenta-se sempre no mesmo círculo previsto pelo processo biológico do organismo vivo e se encerra com a morte do organismo; enquanto o processo de trabalho termina quando o objeto está acabado e pronto para ser introduzido no mundo das coisas.
Do ponto de vista do mundo, o labor e destrutivo porque incorpora a matéria; o trabalho prepara esta para incorporar ao mundo, por isso é construtivo. Do ponto de vista da natureza, o trabalho é destrutivo porque subtrai o material da natureza sem metabolizar diretamente com a natureza.
Por fim a autora aponta que a proteção e a preservação do mundo contra os processos naturais exigem tarefas diárias e repetitivas. A atividade de resposta as demandas do corpo são respondidas pelo labor de forma pacífica; enquanto a defesa do mundo contra a natureza manifesta-se dolorosa.
Labor e Fertilidade
O texto relembra que o labor é interminável, uma vez que acompanha automaticamente a própria vida. O êxito do labor está na proximidade entre o esforço e a recompensa .A força da vida, por outro lado, é a fertilidade. O organismo vivo não se satisfaz com a reprodução; o excedente está na multiplicação. A autora destaca o naturalismo de Marx, ressaltando a “força de trabalho” como modalidade especificamente humana de força vital, capaz de criar um “excedente”. Por outro lado, do ponto de vista da espécie, as atividade convergem para o labor. A distinção está na abundância ou escassez dos bens que alimentam o processo vital.
A Privatividade da Propriedade e da Riqueza
A modernidade defendeu a propriedade como instrumento de apropriação o que determina, para a obra, a “busca desenfreada de mais propriedade”.
O labor é a atividade humana de maior ligação com o corpo, uma vez que o processo natural da vida reside no corpo. As funções corporais do processo vital são preservadas pela privatividade; o labor, por sua vez, não se define como função mas como atividade, mas mantém a natureza privada.
A modernidade e a ascensão da sociedade tornaram o labor público. O processo corporal do homem mostra-se protegido da visibilidade e da audibilidade da esfera pública. A concentração na vida corporal coloca o indivíduo alheio ao mundo, para exemplificar essa realidade o texto trabalha com as categorias da escravidão e da dor. No labor, o corpo concentra-se no processo vital, prende-se ao metabolismo, concentrando-se no funcionamento.
A autora nega que o doloroso esforço de vida, representado pelo corpo, não pode ser a origem da propriedade. Esta, por outro lado, interfere na vinculação do processo de labor e do mundo, reduzindo a desvinculação entre estes. A aquisição da propriedade faz desaparecer a implacabilidade do processo de labor.
Numa sociedade de proprietários, o mundo continua numa posição central; enquanto, na sociedade de operários, a abundância ocupa essa posição. Contudo essa equação altera-se numa sociedade em que o interesse maior é a acumulação e o crescimento da riqueza. Esse processo de acumulação e crescimento pode se tornar infinito como o processo vital.
O argumento que encerra o tópico revela que a fertilidade e a socialização do processo e, conseqüentemente, a substituição do indivíduo pela sociedade, não são capazes de eliminar o caráter privado do labor.
Os Instrumentos do Trabalho e a Divisão do labor
A única vantagem da fertilidade da força de trabalho corresponde à capacidade de prover as necessidades da vida do homem.
O isolamento do animal laborans é resgatado pela autora para esclarecer que esse fenômeno ocorre porque o homem é expelido do mundo na medida em que se aprisiona no próprio corpo. O ônus da vida biológica só pode ser eliminado por meio de servos, para ilustrar essa afirmação relembra a antiguidade em que os escravos arcavam com a responsabilidade da necessidade.
A divisão do labor advém do próprio processo de labor. Essa divisão não se identifica com a divisão do trabalho por meio da especialização, compatibilizando-se com o principio geral da organização. Por outro lado se baseia no fato de que os homens podem se reunir e agir como se fossem um só, enquanto a especialização do trabalho objetiva o produto, razão pela qual exige diversas habilidades.
A sociedade de operários em que se vive tem a possibilidade de produzir a abundância pelo processo do labor; por outro lado, trabalho transformou-se em labor. A divisão do trabalho busca eliminar o labor humano.
A sociedade de consumidores
O labor e o consumo são estágios do processo imposto pelas necessidades humanas. Nesse sentido, vive-se em uma sociedade de operários – homens que laboram. Para a autora, essa sociedade surgiu da emancipação do labor e não da emancipação das classes trabalhadoras. A emancipação do labor não o igualou a outras atividades da vita activa mas o colocou em uma posição de predomínio. Por outro lado ela colocou toda a humanidade submetida à necessidade.
Ao analisar a emancipação do trabalho proposta por Marx, a autora a identifica com a emancipação da necessidade – a emancipação do próprio consumo e, conseqüentemente, a emancipação em relação ao metabolismo que é a própria condição humana.
Ao analisar a automação, aduz que o consumo sem dor e esforço aumentaria o caráter devorador da vida biológica. Por outro lado a produtividade humana seria absorvida por um processo vital intensificado e seguiria, sem dor e esforço, o ciclo natural eternamente repetido.
O ideal sociedade de consumo proporcionaria a emancipação do trabalho que, por sua vez, permitiria a utilização das horas do labor para outras atividade. A autora nega essa possibilidade de aproveitamento do tempo do labor. Para a autora, o maior tempo provocará maior apetite o que conduziria ao perigo de consumo e aniquilação pelo consumo de todos os objetos do mundo.
A autora afirma que a superação da necessidade no mundo moderno só é possível em razão da emancipação do labor e, conseqüentemente, a ocupação do esfera pública pelo animal laborans.
Conclui que a facilidade da vida numa sociedade de consumo tornará mais difícil a consciência das exigências da necessidade, identificando o perigo dessa sociedade não ser capaz de reconhecer a própria futilidade – “a futilidade de uma vida que não se fixa nem se realiza em coisa alguma que seja permanente, que continue a existir depois de terminado o labor”. (p.88)
CAPÍTULO IV TRABALHO A Durabilidade do Mundo
O homo faber trabalha sobre os materiais; enquanto o animal laborans labora e se mistura com eles. O produto do trabalho são coisas destinadas ao uso e dotadas de durabilidade. Contudo o processo vital próprio da existência também alcança o produto do trabalho. O uso leva ao desgaste dos objetos, mas não o destrói. Por outro lado, o uso detém elementos de consumo na medida em que o desgaste ocorre por meio do contato do objeto com o organismo vivo cuja natureza é consumir.
O labor humano pode ser transformar em trabalho, para exemplificar essa afirmação, desenvolve um argumento a respeito do cultivo da terra, concluindo que o solo cultivado permanecer cultivado deve ser trabalhado continuamente. A coisa deve ser continuamente reproduzida para que permaneça como parte do mundo.
Reificação
O trabalho do homo faber corresponde à reificação. (Momento da alienação em que as características de ser se tornam típicas).
O trabalho pressupõe a alteração do reino da natureza, daí o processo de fabricação ser marcado pela violência e violação. Nesse sentido a autora distingue o animal laborans como aquele que é servo da natureza; enquanto o homo faber, senhor de toda a terra. Para autora, a sensação dessa violência traduz a força humana.
O trabalho de fabricação parte de um modelo para a construção do objeto. O papel da fabricação na hierarquia da vita activa mostra-se importante o fato do modelo orientador da construção do objeto não só precede o produto mas também não desaparece depois da fabricação, permanecendo intacto. Essa multiplicação do trabalho distingue-se da repetição.
A fabricação caracteriza-se pela definição de início e fim o que a diferencia das demais atividades humana; o labor não tem começo nem fim definido porque está vinculado ao processo vital do corpo. O processo de fabricação não é irreversível, já que a produção humana pode ser destruída pelo homem. Por isso o homo faber é o amo e senhor, já que é senhor de si mesmo.
Os Instrumentos e o Animal Laborans
O homo faber projeta os instrumentos que aliviam o labor do animal laborans. Por outro lado, instrumentos e ferramentas são objetos mundanos tanto que servem de critérios para a classificação das civilizações. Eles expressam o caráter mundano do processo de labor, uma vez que sobrevivem ao consumo.
A situação factual do labor justifica a necessidade de adaptação dos homens às máquinas, quando, na realidade, estas deveriam servir às necessidades e às carências humanas. O labor exige uma execução ritmicamente ordenada, enquanto o trabalho não. Nesse sentido o instrumento perde o caráter instrumental e se incorpora ao processo de labor, desaparecendo, portanto, a distinção entre homem e utensílio.
Desde a revolução industrial, o animal laborans tem vivido num mundo de máquina em razão de usar ferramentas e utensílios para atenuar o processo vital e não para construir um mundo. A diferença entre ferramenta e máquina acompanha a discussão da adaptação do homem à máquina ou da adaptação da máquina ao homem. A natureza condicionada do homem torna imediata a adaptação entre homem e máquina. Essa adaptação necessitou de ajuste assim como o uso da ferramenta, por outro lado, esse ajuste precisou que os homens adequassem o ritmo do corpo ao movimento mecânico.
A automação revelou as verdadeira implicações da tecnologia (substituição de ferramenta por máquinas). A autora traça uma evolução desse processo, designando, como primeira fase, a invenção da máquina à vapor; segunda etapa, a uso da eletricidade e, quarta momento, a automação.
Segunda a autora, o atual processo de automação desconstruiu duas premissas. A primeira consistente na alegação de que a eficiência está no trabalho realizado pela mão humana; a segunda, na declaração de que as coisas do mundo que nos rodeiam devem depender de desígnios humanos e de padrões de beleza dos homens.
Na atualidade, não se mostra sensato descrever o mundo de máquinas como uma relação de meio de fim. Para a sociedade de operários, o mundo das máquinas substitui hoje o mundo real, em que pese seja incapaz de oferecer aos mortais um abrigo mais confortável e permanente.
Os Instrumentos e o Homo Faber
O texto trabalha a noção de instrumentalidade que determina todo o processo de fabricação. Nesse aspecto, destaca que os fins justificam os meios, na verdade, para a autora, o fim produz e organiza os meios, justificando a violência contra a natureza; por sua vez, o produto final justifica os meios.
Os utensílios são produzidos para se alcançar o fim. Contudo os produtos nem sempre são fins, se considerarmos um mundo estritamente utilitário em que todos os fins tendem em ser de certa duração e a se transformarem em meios para outros fins.
A filosofia do homo faber reflete a realidade de meio e fim. A perplexidade desse sistema está justamente na relação entre meios e fins que se esquece do significado. A utilidade quando eleita a uma categoria (significância) produz ausência de significado. O homo faber é um produtor, ao fabricar coisas num sistema que funciona em termos de meios e fins, perde a capacidade de compreender o significado, da mesma forma em que o animal laborans não entende o conceito de instrumento.
A ausência de significado da filosofia utilitarista pode ser solucionada pelo afastamento do conceito objetivo e pela aproximação do subjetivo da própria utilidade. Numa visão antropocêntrica, o conceito de utilidade pode adquirir algum significado. Kant liberta a filosofia da trivialidade do bom senso, mas retorna a fórmula “fim em si mesmo ao analisar o problema do significado”. O que está em jogo para autora não é o conceito de instrumento ao emprego de meios para fins mas a generalização da fabricação em que utilização e serventia são fixadas como critérios para a vida e para o mundo dos homens. Se os critérios de homo faber assumirem a posição primordial – de governança do mundo, tudo será considerado como meio. O homo faber julgará todas as coisas como objetos.
O Mercado de Trocas
Na antiguidade, o espaço público também foi um lugar de trocas de mercadorias. Na Grécia, os tiranos nutriam a ambição de convencer os cidadãos a abandonarem discussões políticas e transformar a Agora num espaço de comércio pela construção de lojas.
A exibição das mercadorias caracterizou o comércio na idade média. A autora aponta que a sociedade de produção expõe ostensivamente a produção enquanto a sociedade de operários, o consumo. O animal laborans é gregário mas incapaz de ocupar uma esfera pública, o homo faber, por outro lado, cria um espaço público que corresponde ao mercado. O isolamento deste se relaciona com a produtividade. A privatividade é necessária para isolamento exigido pela produção do trabalho. O espaço político ameaça esse isolamento, assim o mercado de troca desenvolve –se no espaço público - o local de relacionamento do homo faber . Daí a idéia marxista de alienação (auto-alienação)
O surgimento do mercado de troca ocorre quando o homo faber rompe o isolamento. Nesse momento se introduz a categoria durabilidade. No mercado de troca, todas as coisas adquirem valor tanto os produtos do labor quanto do trabalho. O valor consiste na estima dada ao objeto pela esfera pública. O valor como qualidade, inexiste na esfera privada.
O mercado de troca, na sociedade comercial, é o lugar mais importante onde tudo adquire valor cambial, conseqüente, mercadoria.
A relatividade universal – surge a partir da avaliação de coisas em relação a outras. A relatividade não se mostra o principal problema da economia moderna, mas a impossibilidade de se perder medidas e valores absolutos, já que as atividades do homo faber são aferidas por meio de regras, normas e padrãos.
A Permanência do Mundo e a Obra de Arte
O texto descreve a relação entre o homem e a obra de arte. Para o texto, as obras de arte são as mais mundanas das coisas, por outro lado, a durabilidade afasta os processos de corrosão submetidos as criaturas vivas. Por sua vez, a permanência da arte liga-se a imortalidade que adquire tangibilidade.
A arte provém da capacidade humana de pensar. Nesse sentido, a reificação não se amolda a um processo de transformação, mas de transfiguração. As obras de arte são coisas produzidas pelo pensamento. A poesia é a mais sublime das produções da arte. A poesia é linguagem, permanecendo próxima do pensamento criador.
O pensamento difere da cognição, uma vez que aquele é fonte das artes; este, da ciência. A cognição tem um fim definido, percorrendo a lógica da utilidade. Para a autora, os cientistas rogam a inutilidade do pensamento. Os processos cognitivos da ciência, desde modo, assemelham-se com os processos cognitivos da fabricação.
Os computadores provam que a racionalidade de prever as conseqüências não é uma das mais altas capacidades humanas.
A discrepância da economia está na consciência de que a produtividade reside menos na utilidade que a durabilidade. As obras de arte vazias de utilidade marcam-se pela durabilidade. Conclui, portanto, que os objetos não são julgados segundo as necessidades objetivas do homem, mas segundo critérios objetivos do mundo em que encontra razões para durar e serem vistos.
Por fim, para a construção da morada, o artifício humano deve ser um lugar adequado à ação e ao discurso. A atividade não só inúteis às necessidades da vida, nas distintas atividades de fabricação pela qual são produzidos o mundo e os objetos. A vida não precisa ser a compulsão da vida biológica – e do labor, tampouco a instrumentalidade de utilitarista da fabricação.
Capítulo V – Ação
A Revelação do Agente no Discurso e na Ação
A pluralidade humana comporta o duplo aspecto de igualdade e diferença. Aquela produz compreensão entre os homens; esta, a necessidade do discurso e da ação para a comunicação e o entendimento. A diferença não pressupõe a alteridade. Está é um aspecto importante da pluralidade, sendo o motivo pela qual as definições são distinções (As conceituações ocorrem a partir de distinções estabelecidas)
A alteridade, a igualdade e a distinção tornam os homens singulares. A pluralidade é a paradoxal pluralidade entre seres singulares. Essas características se revelam no discurso e na ação porque por meio destes os homens se manifestam um com os outros.
Na vida sem discurso, a ação está morta para a vida, deixa de ser humana pela ausência de relação entre homens. A ação é revelada pelo discurso, portanto necessita do discurso. Os homens revelam-se pela ação e pelo discurso.
A teia de relações e as histórias humanas
A teia de relações humana denomina uma realidade intangível, produzida não só pela mediação objetiva da revelação do sujeito com o mundo físico e mundano mas também pela mediação subjetiva dessa revelação com os outros homens, já que estes agem e falam diretamente uns com os outros. As mediações são reais assim como os objetos visíveis, por isso essa realidade recebe da autora o nome de teia de relações humanas. Esta está vinculada com o mundo físico, do mesmo modo que se relaciona discurso e corpo.
A autora crítica o materialismo em razão deste não visualizar no homem a revelação do sujeito que se processa de forma singular e distinta mesmo quando ocorre na perseguição de um objetivo material e mundano.
A revelação do sujeito/identidade por meio do discurso e o estabelecimento do início pela ação ocorrem sempre em uma teia (realidade de relações humanas) já existente. Nesse meio a ação produz histórias apesar da dificuldade desta produzir os objetivos. A história, então, concebe-se como produto da ação e do discurso. Contudo a autora, pontua a incógnita da história e o desafio da filosofia da história, uma vez que o sujeito da história é uma abstração que jamais poderá ser um agente ativo.
A fragilidade dos Negócios Humanos
A ação pressupõe convivência, já que não se faz possível no isolamento. A ação e o discurso são circundados pela teia de atos e palavras de outros homens, ao mesmo tempo, estão em permanente contato com esta. O texto apresenta o fracasso da cooperação por meio de exemplos dos significados e dos usos dos termos latinos e gregos que definem o verbo agir. Os verbos gregos archein começar e prattein realizar correspondem aos latinos agere (guiar) e gerrere (conduzir). As relações entre o líder e os outros produziu duas relações: ordenar e executar. O mito do homem forte nasce da reivindicação do governante do êxito que, na verdade, é produto do todo. A autora nota que o autor não só é agente mas também paciente.
A ação fixa relações, tendendo a romper os limites e fronteiras existentes nos negócios humanos que não são capazes de resistir a nova geração. Assim a fragilidade das leis e das instituições humanas decorre da própria natalidade. As limitações legais não são defesas contra a ação vinda do próprio corpo político. A ação mostra-se ilimitada em razão da expressiva capacidade de estabelecer relações, dito de outro modo, de produzir (produtividade).
As limitações do corpo político não são hábeis a oferecer proteção contra a tendência da ação de violar todos os limites. Por outro lado, também essas limitações são impotentes para neutralizar a imprevisibilidade própria da ação.
O significado da historia só se revela quando ela termina. As histórias são resultados das ações, mas a criação da história realiza-se pela narração dos natos.O agente (ator) produz a história pela ação; mas o narrador é quem cria a história a partir do olhar retrospectivo.
A Solução Grega
O texto afirma a existência entre a imprevisibilidade do resultado e o caráter revelador da ação e do discurso. A condição de bem-estar (vocábulo grego eudaimonia) revela-se na ação e no discurso, contudo só se torna tangível na história do indivíduo que, por sua vez, só se torna conhecido ao final. Segundo a autora, “a essência humana – não a natureza humana em geral (que não existe), nem a soma total de qualidades e imperfeições do indivíduo, mas a essência de quem ele é – só passa a existir depois que a vida se acaba, deixando atrás de si nada mais que uma história.”
O protótipo do conceito de ação na Grécia encontra-se na auto-revelação; no desejo de auto-exibição na competição entre os homens que está na base do conceito de política das cidades-estados gregas.
A ação só pode resultar num produto final quando se destrói o significado autentico, intangível e frágil. A solução grega original e pré-filosófica para a fragilidade e intangibilidade da ação foi a fundação da polis que se destinava a permitir aos homens a conquista da “fama imortal” (possibilitar aos homens a distinção pela revelação da identidade singular e distinta pelo meio de atos e palavras) . O texto aponta o objeto da cidade-estado a causa do declínio, uma vez que pretendeu tornar o extraordinário em ordinário. Por outro lado a polis tinha a função de remediar a futilidade da ação e do discurso, pois era grande a possibilidade de esquecimento de um ato digno de ser considerado imortal. Nesse contexto, pontua a função política dos poetas. A convivência humana na forma de polis parecia garantir a ação e o discurso e, conseqüentemente, os feitos e as histórias. A esfera política resulta diretamente da atuação em conjunto e da comparticipação de palavras e atos. A polis é a organização da comunidade que resulta do agir e de falar em conjunto; o espaço físico e a localização não constitui a cidade-estado, contudo o verdadeiro espaço é formado pela convivência de pessoas. Nesse sentido a ação e o discurso criam um espaço adequado ao tempo e ao lugar que se trata de um espaço de aparência – local em que se aparece explicitamente. (nesse local se nega a mera existência física). Esse espaço é real embora a maioria dos homens agentes e falantes não viva nele.
O Espaço da Aparência e o Poder
O espaço de aparência advém da reunião de homens em torno do discurso e da ação. Esse espaço é anterior a constituição formal das esferas públicas; contudo desaparece pela dispersão dos homens e pela suspensão das atividades. Esse espaço é potencial.
O poder, por sua vez, efetiva-se pela sintonia entre palavra e ato. Nesse sentido escreve a autora “quando as palavras não são vazias e os atos não são brutais, quando as palavras não são empregadas para velar intenções mas para revelar realidades, e os atos não são usados para violar e destruir mas para criar relações e novas realidades.”
A convivência humana é indispensável para a geração do poder. As cidades-estados são paradigmas para toda a organização política ocidental, por outro lado, marcando como condição prévia material mais importante para o poder. Ao optar pelo isolamento, renuncia o homem ao poder. Como ação, o poder é ilimitado, restringindo-se apenas em relação a exigência pessoas, uma vez que o poder humano corresponde à condição humana da pluralidade. A força é indivisível; a interação da pluralidade, nesse caso, uma definida limitação da força individual. A onipotência implica a destruição da pluralidade.
A violência provoca a destruição do poder, jamais a substituição. O texto trabalha a tirania como a forma de poder no isolamento.
O poder pode aniquilar a força. A sociedade como esfera pública principal está sujeita a perversão do “agir em conjunto”. O poder preserva a esfera pública o espaço de aparência, sendo princípio essencial ao artifício humano.(ação, discurso, teia de negócios e história)
Nesse contexto o texto estabelece uma relação entre ação, discurso e poder, fixando a necessidade da ação para movimentar o mundo com a introdução do novo; do discurso para materializar e celebrar o novo e do poder para preservação do espaço de aparência produzido pelo discurso e pela ação.
O Homo Faber e o Espaço de Aparência
A esfera pública – espaço mundano necessário para aparência (revelação do sujeito) é obra do homem, num sentido mais específico que o trabalho e o labor. A convicção de que o aparecimento e a realização de si mesmo são o máximo da existência humana não é absoluta, uma vez que existem convicções de que os produtos do homo faber podem ser mais duradouros que este e de que a vida do animal laborans é um bem supremo.
A hierarquia do senso comum está relacionada a percepções sensoriais da realidade. Dessa forma o declínio do senso comum liga-se ao crescimento da superstição e da crença.
A autora denomina alienação a atrofia do espaço da aparência e o declínio do senso comum que ocorre com mais expressão em uma sociedade de operários. Nesse sentido relembra as afirmações de Marx que associava as leis econômicas e as leis naturais para regular o consumo e não a troca. No mercado de trocas, segundo a autora, os homens não entram em contato com outros homens, estes são produtores e não pessoas. Essa relação, segundo o texto, é denunciada pelo marxismo por meio dos conceitos de auto-alienação e desumanização. A sociedade comercial exclui a qualidade humana dos homens, invertendo a relação entre o público e o privado (este passa a se revelar na família e na intimidade)
Nesse sentido desenvolve a idéia de que a melhor exemplo de frustração humana é o fenômeno do gênio pregado desde a idade moderna como ideal.
O movimento operário
O trabalho não é capaz de criar uma esfera pública autônoma em que os homens possam aparecer na condição de homens; contudo está vinculado ao espaço de aparência Dessa forma o trabalho é um modo apolítico de vida, entretanto não é antipolítico.
O texto considera antipolítico a união de muitos em um só, uma vez que as comunidades políticas compõem-se de pessoas diferentes e desiguais. A igualdade, por sua vez, presente na esfera pública é uma igualdade de desiguais que precisam ser igualados sob certos aspectos e por motivos específicos. O fator igualador não é a natureza humana, mas circunstancia externa e alheia a esta. A igualdade política, desse modo, não advém de fatores naturais.
Traça um paralelo entre a ausência de rebeliões escravas sérias na antiguidade e o papel dos movimentos operários na modernidade.
A admissão na esfera pública é o marco de distinção entre o escravo e o trabalhador moderno. A emancipação do trabalhador acarreta a possibilidade de aparição pública, contudo esta não está acompanhada da simultânea admissão na sociedade. Os operários, por sua vez, ao passo que defendiam os interesse econômicos, buscavam o reconhecimento político. Nesse sentido diz Arendt (p. 231) que “ ao despontar no cenário público, o movimento operário era a única organização na qual os homens agiam e falavam enquanto homens, e não enquanto membros da sociedade.”
Os movimentos operários, num certo período, conseguiram fundar um novo espaço público, com novas normas políticas. Contudo o que impulsionou esse movimento não foi o labor, mas as injustiças e as hipocrisias que, segundo Arendt, desapareceram com a transformação da sociedade de classes numa sociedade de massas. O movimento operário perde o caráter político quando a classe operária se torna parte integrante da sociedade.
Desse modo se revela um conexão entre a supressão do mercado de trocas e a decadência do espaço público.
A Substituição da Ação pela Fabricação
A tentativa de substituição da ação pela fabricação marcou os argumentos contra a democracia e a política. Os diversos modelos de tirania empenham-se pelo banimento do cidadão da esfera pública.
A perda da fragilidade dos negócios humanos e a busca da tranqüilidade da ordem inspiraram a filosofia política que trabalhou para encontrar fundamentos teóricos e práticos para evitar a política. Nesse sentido se projetou a substituição da ação pelo governo. O conceito de governo, segundo a autora “a noção de que homens são podem viver juntos, de maneira legítima e política, quando alguns têm o direito de comandar e os demais são forçados a obedecer.” (p. 234) . O texto descreve o projeto de Platão em substituir a ação pela fabricação.
A Ação como Processo
A degradação da política e a “instrumentalização” da ação não lograram suprimir a ação que permaneceu um das mais decisivas experiências humanas tampouco conseguiram destruir a esfera dos negócios humanos. A tentativa de supressão da ação canalizou a capacidade humana de agir para uma atitude de exploração da natureza e da fabricação a partir de materiais naturais.
A incerteza é indicada como a principal característica dos negócios humanos. A capacidade de ação está ligada a nossa faculdade de iniciar novos processos. A força do processo de ação é caracterizada pela durabilidade e ilimitação.
A Irreversibilidade e o Poder de Perdoar
A irreversibilidade e a imprevisibilidade do processo da ação restam mitigados pela faculdade de perdoar e de prometer. Estas, por sua vez, dependem da pluralidade, já que, na solidão e no isolamento, o perdão e a promessa não podem ser realidade. Por outro lado a autora opõe essa faculdades ao conceito de governo de Platão que se justifica na relação que a pessoa mantém consigo mesma.
O perdão e a promessa como solução à força e à elasticidade dos processos de ação pressupõe a condição da pluralidade e a esfera dos negócios humanos. A tecnologia e a ciência natural moderna não podem se falar dessas soluções para desfazer a imprevisibilidade e a irreversibilidade introduzida na natureza.
O texto analisa a noção de perdão introduzida por Jesus de Nazaré, para destacar que este sustentou que o perdão não deriva de Deus mas está nas relações entre os homens.
A relação de oposição entre perdão e vingança é apresentada pelo tópico; esta é entendida como a reação natural e automática à transgressão. A punição e uma alternativa ao perdão, ambos se identificam pela tentativa de finalizar um processo que, sem essa mediação, pode ser tornar indefinido. Nesse contexto a autora relaciona perdão e amor a partir do construído por Jesus de Nazaré, para negar a idéia de que só o amor pode perdoar já que este é estritamente delimitado na esfera dos negócios humanos.
Por fim afirma a autora que a perda do respeito nos tempos modernos revela a despersonalização da vida pública e social.
A Imprevisibilidade e o Poder de Prometer
A promessa, ao contrário do perdão que se manteve afastado da esfera pública ao se ligar ao conceito de amor, ocupou lugar central no pensamento político. A função da faculdade de prometer é esclarecer a desconfiança no homem e a imprevisibilidade das conseqüências dos atos numa comunidade de iguais. A promessa é uma alternativa à supremacia do domínio de si mesmo e no governo dos outros, portanto é uma liberdade sob a condição de não-soberania.
CAPÍTULO VI
A VITA ACTIVA E A ERA MODERNA
A alienação do Mundo
A autora relembra que a descoberta da América, a reforma e a invenção do telescópio são marcos que determinam a modernidade. Contudo afirma que o sinal da modernidade é a alienação em relação ao mundo e não a alienação em relação ao ego, como pensava Marx.
Com o declínio do sistema de estados nacionais, o encolhimento econômico e geográfico da terra, a sociedade supera a abstração humanista, transformando-se em uma entidade realmente existente. Nesse aspecto a ascensão da sociedade trouxe não só o declínio simultâneo das esferas públicas e privadas mas também o desaparecimento de um mundo público comum o que contribuiu para a formação da massa solitária e da mentalidade alienada do mundo.
A descoberta do Ponto de Vista Arquimediano
A descoberta do telescópio colocou em dúvida a noção de universo finito e geocêntrico. Por outro lado a reação filosófica foi a dúvida cartesiana que fundou a filosofia moderna. Atribui-se ao progresso das ciências naturais um aumento comprovado, mais célere da força e do conhecimento humano. Contudo, segundo a autora, a esse progresso, também se atribui o comprovado aumento do desespero humano. Nesse sentido conclui a autora que o triunfo e o desespero estão ligados ao mesmo evento.
A autora pontua que tratamos a natureza a partir de um ponto de vista no universo fora da terra, sem contudo termos o ponto de apoio Arquimediano.
O amor pelo mundo foi a primeira vítima da alienação do mundo na era moderna. A autora traça um paralelo entre a alienação do mundo que determinou o curso da evolução da sociedade moderna e a alienação da Terra que caracterizou a ciência moderna. A alienação da Terra libertou a matemática da geometria sujeitando esta ao tratamento algébrico que reduziu dados sensoriais e movimentos terrestres a símbolos matemáticos.
Ciência Universal vs Ciência Natura
Para a autora, o significado da revolução de Copérnico e da descoberta do ponto de vista arquimediano demorou a se revelar. A linha divisória entre a era moderna e a contemporânea está na distinção da ciência que vê a natureza de um ponto de vista universal ( dominando-a completamente) e da ciência que importa processos cósmicos para natureza (assumindo o risco de destruição). Nessa transposição se revela a capacidade de destruição do homem.
O papel da ciência é analisado pelo texto não só no que se relaciona com a capacidade de rupturas de cognitivas mas também em relação a antevisão do processo de mudança de ânimo do homem.
A conexão entre a alienação do homem e o subjetivismo da filosofia moderna. Por sua vez, revela o texto que inexiste a distinção de ânimo entre a filosofia e a ciência que caracterizava aquela como pessimista e esta como otimista.
O Advento da Dúvida Cartesiana
A moderna filosofia, desde Descartes, tem se colocado e manifestado nas ramificações da dúvida. A autora parte da observação de que o telescópio e não a razão alterou a concepção física do mundo. A partir daí, o ser e a aparência estão separados definitivamente o que pressupõe a necessidade de se colocar tudo em dúvida.
A principal característica da dúvida cartesiana é a universalidade, percorre os sentidos, a razão e a fé. “A dúvida cartesiana não duvidava simplesmente de que a compreensão humana fosse acessível a toda a verdade ou que a visão humana fosse capaz de tudo ver; para ela, a inteligibilidade à compreensão humana não constitui demonstração de verdade, tal como a visibilidade não constitui prova de realidade.” (p. 288).
A filosofia moderna volta-se contra a tradição. A autora aponta dois problemas na filosofia cartesiana. A primeira corresponde a dúvida em relação à realidade e ao mundo (não se pode confiar os sentidos, o senso comum, a razão); a segundo se relaciona com a condição humana. Esses problemas da filosofia cartesiana estão presentes em toda a modernidade.
A introspecção e a Perda do Senso Comum
A introspecção para Descartes deve produzir a certeza. Nesse processo o homem descobre que traz dentro de si mesmo a certeza da própria existência. Nesse sentido a solução cartesiana é a transferência do ponto arquimediano para o próprio homem.
A Atividade de Pensar e a Moderna Concepção do Mundo
A transferência do ponto de vista arquimediano para a mente do homem possibilitou a libertação deste da condição humana de ser um habitante da terra. Nas ciências naturais, a dúvida cartesiana foi amenizada pela transferência do ponto arquimediano para dentro do homem; por outro lado, a matematificação da física promoveu a renúncia dos sentidos pelo homem na aquisição do conhecimento o que fez com que se trabalhasse com configurações matemáticas. Dessa forma as experimentações cientificas são realidades criadas pelo homem.
A autora conclui que a dúvida de Descartes atingiu o cerne da ciência física uma vez que não só a natureza e o Ser não se revelam aos sentidos mas também não são imaginados pelo raciocínio puro.
A Inversão de Posições entre a Contemplação e a Ação
A autora aponta como a conquista espiritual da modernidade a inversão hierárquica entre a contemplação e a ação. Nesse aspecto afirma que a experiência fundamental dessa inversão foi o resgate da fé na ação humana.
Por outro lado, desde o divorcio da aparência e do ser, a verdade científica e a verdade filosófica separam-se, aquela não mais precisa ser eterna tampouco compreensível ou adequada ao raciocínio humano.
A inversão não promoveu a ação à condição da contemplação, uma vez que esta ocupava um papel condicionar das ademais atividades da vita ativa que se justificavam para tornar possível a vita contemplativa.
A autora conclui que a influência e a importância da filosofia diminuiu na modernidade; os filósofos tornaram-se epistemologistas, preocupados com uma teoria global da ciência que os cientistas não necessitavam ou, na visão hegeliana, “porta-vozes através dos quais o estado de espírito geral da época era expresso com clareza conceitual.” (p. 307)
A Inversão dentro da Vita Activa e a Vitória do Homo Faber
O fazer e o fabricar - prerrogativas do homo faber - foram promovidos à posição que ocupava a contemplação na vita activa . Desde a criação do telescópio, o progresso científico está relacionado com o desenvolvimento da manufatura de novos utensílios e instrumentos. Nesse aspecto, ao lado do instrumento, logo a busca de auxílio para aquisição de conhecimento no Homo Faber, o emprego da experimentação, portanto o fenômeno da observação, provocou o deslocamento da posição das atividades do homo faber.
Por outro lado, qualidades próprias do trabalho, como a produtividade e a criatividade, tornaram-se ideais na era moderna. Outro elemento que contribui para o deslocamento de hierarquia é a busca da compreensão do processo e, conseqüentemente, a mudança no objeto da ciência que passa da natureza para a história.
A vitória do homo faber não podia permanecer restrita ao emprego de novos métodos nas ciência naturais – a experimentação e a matematização da pesquisa.
A alienação do mundo atingiu o trabalho, a reificação e a fabricação de coisas. O rompimento com a contemplação foi consumado com a introdução do conceito de processo na atividade da fabricação. A fabricação ocupa a posição antes ocupada pela ação política.
A procura em esclarecer o processo desacreditou a contemplação como meio de se alcançar a verdade. A Derrota do Homo Faber e o Princípio da Felicidade
A retirada da contemplação das atividades humanas significativas promoveu o homo faber a fazedor e fabricante e não a homem de ação. Na modernidade, a motivação humana reduziu-se ao princípio da utilidade. O conceito de processo alterou a mentalidade do homo faber, adquirindo nova habilidade na fabricação de instrumentos e perdendo referências em relação à atividade de fabricação. Para a autora, a fabricação era a atividade da vita activa que mais poderia perder com a eliminação da contemplação. A fabricação percebe os processos como meios secundários. O fracasso do homo faber revela-se na rapidez em que o princípio da utilidade é substituído pelo princípio da felicidade.
A Vida como bem Supremo
Os reflexos da derrota do homo faber são sentidos nas transformações da física em astrofísica e das ciências naturais em ciências universais. A autora propõe esclarecer o motivo que levou o Labor a alcançar a mais alta posição entre as atividades da capacidade humana, para tanto aponta que a inversão de hierarquia ocorreu num contexto de sociedade cristal em que a prioridade da vida é uma verdade axiomática. Dessa forma a inversão de posição da ação e da contemplação coincide com a inversão entre a vida e o mundo que, segundo a autora, é o ponto de partida do desenvolvimento moderno.
A Vitória do Animal Laborans
O processo de secularização, a dúvida cartesiana e a perda da vida individual mortal são fatores que influenciaram a vitória do animal laboran. Na modernidade, o processo vital assume a posição que ocuparam o corpo político e a vida individual respectivamente na antiguidade e na Idade Média. Na verdade, segundo a autora, no surgimento da sociedade, ocorre uma afirmação da vida da espécie. A ação desaparece num contexto de humanidade socializada, restando-se a força natural – o processo vital. Nessa realidade o labor mostra-se a única atividade necessária para garantir a continuidade da vida.
Por outro lado, na atualidade, o Labor parece designar de forma ambiciosa o que estamos fazendo no mundo, uma vez que, neste último estágio da sociedade de operários, a sociedade de detentores de emprego, o funcionamento é automático.
A autora teme que a atividade humana termine numa passividade estéril, afirmando que “a ação passou a ser uma atividade limitada a um pequeno grupo de privilegiados; e os poucos que ainda sabem o que significa agir talvez sejam ainda menos numerosos.” |